O SILÊNCIO DOS INOCENTES

Eles nem sequer são um “zero à esquerda”. É que estes, embora inúteis e insignificantes, ainda existem…
Eles não existem, de todo. Foram excluídos, são os que já não têm número, os que desapareceram das estatísticas.
Não pertencem já ao número dos desempregados…estão ignorados. Vivem em parte incerta, sabe-se lá onde. Já não contam para nada.Já desistiram da vida e a vida esqueceu-se deles.
São as vítimas do glorioso ajustamento. Os seus danos colaterais. Aqueles de quem já ninguém se lembra. Não existem para os outros. Mas não existindo, estão cá.À nossa beira, juntinho a nós. Passamos por eles e não os vemos. Ou fazemos que não vemos. Já não pertencem ao nosso mundo.
Vivem em papelões uns. Outros nos fundos de alguma casa. Vão catando caixotes do lixo, uns. Outros vivem da esmola de familiares. Para eles o mundo desabou…

Ouvimos e lemos que se gastou mais neste Natal que no do ano transacto.E que os Reveillons estão repletos. Que não há ninguém que não queira celebrar o…ter sobrevivido. Porque os sobreviventes estão mais confiantes.
O Governo ufana-se afirmando que o número de desempregados está a descer. Claro que omite que são os que ainda procuram emprego! E que, pasme-se, a procura interna está a crescer. Do mesmo modo que, afirmava há dois anos, não compreendia como é que a procura estava a descer. O Governo não compreende nada e, no entanto, as coisas acontecem, estão à sua frente e, mesmo não vendo, ele utiliza-as, manobra-as e, desgraçadamente, aqueles que conseguiram fugir ao ajustamento compreendem e corroboram…

Mas a grande verdade, e muito dolorosa verdade, é que aqueles que conseguiram manter o emprego, mesmo perdendo rendimento, já esqueceram, com muita facilidade esqueceram, os seus irmãos que ficaram para trás. E pensam que eles, eles sim, é que foram os que fizeram o tal grande esforço nacional e patriótico para a recuperação daquela parte da soberania perdida. E que outros que ficaram para trás não querem é trabalhar…
E também acham que faz parte desse grande esforço nacional e patriótico elevar a procura interna. Consumir mais.
A estes o Governo, candidamente, agradece. E ufana-se de ter ultrapassado o “cabo das tormentas”.
E que o Natal voltou a ser o que era. Houve prendas para as crianças, estas ficaram felizes e o Pai Natal não deixou de comparecer. Nas suas casas. Tudo como dantes no” quartel de abrantes”. E a crise…qual crise?

Mas, e os outros? Onde param os outros? Os esquecidos e ignorados? Os desajustados? Os que perderam a sua dignidade? Para além do emprego, dos filhos, do carinho e do amor? Onde estão, que toda a gente os ignora? Os que já não têm força para lutar?
Eles tiveram Natal? E as sua crianças?
Ninguém se lembra deles, a não ser algumas Instituições resistentes e ignotas? E alguns voluntários, nobre gente, que aceitam prescindir de alguma comodidade e vão fazer e distribuir sopa, para além de tentar minorar o sofrimento dessa inexistente gente. Gente que não tem Pátria, nem governo, nem Nação.
Gente silenciosa, que já foi Gente e agora não.

E, envergonhados, estes silenciosos inocentes, nem ao menos conseguem envergonhar a outra “pobre” gente que os ignora.

Filhos duma grande….

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