So long PETE SEEGER!

                Como já declarei no Facebook hoje sinto-me triste, muito triste. Como se tivessem levado algo de mim… Mas também desiludido e preocupado. È que, para além de tudo o  resto, desapareceu uma das últimas referências humanas e cívicas, da América e do Mundo, porque PETE SEEGER era universal. Depois do ZECA AFONSO, depois de ÁLVARO CUNHAL, depois de SARAMAGO, depois de MIGUEL PORTAS, depois de MANDELA… todas pessoas que nos faziam ver o outro lado das coisas, com saber, com humildade, com carisma e com um desprendimento tal, face à sua gigantesca dimensão, que nos desarmavam… Agora, PETE SEEGER.

                Ele era, como dizia e diz Bruce Springsteen, a “ consciência da América”. Ele era o agitador e o agregador. Simples, modesto, corajoso e impoluto. Um exemplo de vida. Viveu 94 anos e mais de 70 anos sempre na frente das lutas, sempre no sítio certo, sempre à frente do tempo, lutando pelos direitos dos trabalhadores a seguir à Grande Depressão, apoiando os Sindicatos, lutando contra o obscurantismo, dando a mostrar a “outra América” e com humildade, nobreza e coerência inexpugnáveis. Foi, nos anos 50, num período negro da história Americana, perseguido pelo “Mccarthysmo”, num período de “ caça às bruxas” e em que foram igualmente perseguidos outros trabalhadores da cultura, acusados de apoiarem as causas socialistas e comunistas e de atentarem contra o Estado Americano. Interrogado não falou, cantava e apoiava quem quer que fosse independentemente das suas crenças políticas ou religiosas. E não recorreu à “5ª Emenda”!

                Comecei a conhecê-lo ainda nos anos 60, numa história que já aqui contei, quando ouvi pela primeira vez a “ Guantanamera”. É uma música do cancioneiro Cubano, mas foi Pete Seeger quem a descobriu, deu a conhecer e popularizou! Pete Seeger…um Americano! Mas foi também através dele que conheci Carlos Mejia Godoy, grande compositor e activista Nicaraguense e foi através dele de conheci canções da Guerra Civil Espanhola. Foi Pete Seeger que arrancou do anonimato mil e uma canções de luta dos povos do mundo e deu a conhecer a todos a grandiosidade da música Folk Americana. Foi ele que inspirou e apoiou grandes mitos como Joan Baez e Bob Dylan. Foi ele que ajudou a arrancar com os grandes festivais de música popular, que começaram com os festivais de Newport e tiveram o seu auge em Woodstock! Sempre Pete Seeger!

                Cantou sempre para o Povo, apelando à união e à luta. Organizando e agregando. Sempre! Cantava para os explorados, para os trabalhadores, para os estudantes e para as crianças. Homem frugal e exemplar, nunca hesitou estar na frente das grandes manifestações, com Martin Luther King na defesa dos direitos cívicos e dos negros; contra a guerra do Vietnam; contra a guerra do Iraque, mais tarde e, até há bem poucos anos, apoiando o movimento dos “ Occupy Wall Steet”, a quem dizia : “ Desconfiem dos grandes líderes. Procurem encontrar sempre muitos pequenos líderes!”.

                Esteve em Portugal em 1983, num memorável concerto no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, em 2 de Dezembro desse ano, promovido por uma comissão organizadora composta por grandes nomes da nossa vida cultural, a saber: ANTÓNIO MACEDO, DANIEL RICARDO, JOÃO PAULO GUERRA, JOSÉ BARATA MOURA, JOSÉ JORGE LETRIA, RUBEN DE CARVALHO ( o homem que mais sabe de música americana, toda a música americana, em Portugal) e SÉRGIO GODINHO. Unidos todos pelo mesmo lema : o respeito e admiração por PETE SEEGER!

                Foram eles que o trouxeram, para um espectáculo sem fins lucrativos, e aquando do concerto foi gravado um LP do mesmo, que comprei e guardo religiosamente, e cuja caixa continha um Livro, que compacta a vida e história deste grande Homem, que já li inúmeras vezes, e cuja introdução, redigida pelos Senhores acima referidos, eu queria aqui reproduzir. Eu sei que é um pouco longo, mas é importante para, especialmente quem não conhecia tão bem Pete Seeger, fique com uma quadro de quem ele realmente era e foi. Ele que nos cantou, ensinou e deu a conhecer a todos nós e ao mundo músicas e canções intemporais como : Hammer Song; We Shall Overcome; Talking Union; Union Maid; Joe Hill; Hold the Fort; Wasn´t That a Time; Where Have all the Flowers Gone; What you Learn in Scholl”; What Side Are You On; John Brows´s Body; Mali  Myself to You; We Shall Not be Moved; The Peatbog Soldiers; Los Quatro Generales; Jarama Valley; Come Away Melinda; Little Boxes; Guantanamera; The Bells of Rhynmey; Going to Study War no More; Solidarity Forever; Turn, Turn, Turn; This Land is Your Land..and so on, and so on…

                Recordo que este texto foi escrito em 1983, mas Pete Seeger nada  mudou. Aqui vai:

                “Faltava-nos Pete Seeger. Faltava á vida social e cultural portuguesa- libertada da censura e aberta à convivência fraterna com todos os povos- privar pessoalmente com Pete Seeger. Faltava-nos cantar com Pete Seeger, entrar com ele nesse coro imenso de vozes do mundo, afinados pela certeza comum de que “ havemos de vencer”, “havemos de ser livres”, “havemos de viver em paz”. Um dia, qualquer dia. Bem assim como o Portugal da “ Grandola Vila Morena” faltava  no roteiro do cantor de “ We Shall Overcome”.

                Pete Seeger vem agora a Lisboa. Finalmente. Vem num dia destes tempos perigosos, carregados com ameaças de guerra no horizonte, cantar, e para que cantemos com ele, os valores da liberdade, do trabalho e da paz.

                Cantor Americano e cidadão do mundo, Pete Seeger veio para a música nos anos 30 e fez estrada com Woody Guthrie, Leadbelly, Allan Lomax. No país da intolerância, ganhou direito a ser considerado herdeiro das mais justas e humanas tradições da “outra América”, identificando-se por inteiro com os anseios  de liberdade, de justiça e de paz do povo da grande América do  Norte, fascinante e contraditória. Sem qualquer ambiguidade, assumindo todas as suas posições e pagando por elas o preço do rancor e das perseguições dos poderosos, Pete Seeger fez da canção um compromisso com a luta dos trabalhadores e dos povos da América e do mundo. As suas canções cantadas em voz alta ou em surdina por todo o mundo, ergueram o culto dos valores mais generosos, mobilizaram e educaram o gosto e a sensibilidade  de milhões de homens e mulheres deste tempo.

                Sem qualquer ambiguidade: as canções recolhidas, compostas e divulgadas por Pete Seeger tomaram parte activa da luta da inteligência contra o obscurantismo, da cultura contra o consumo, dos humildes contra os tiranos. Uniram os homens por cima de barricadas artificialmente levantadas entre os homens. Cantaram-nas brancos e negros contra a discriminação racial, vietnamitas e americanos contra a opressão imperialista, árabes e judeus contra a ocupação sionista. Amadas pelos povos, banidas pelos ditadores, as canções de Pete Seeger são hoje ( eram) cantadas nas prisões da África do Sul e  nos campos de concentração do Chile.

                Por tudo isto faltava-nos Pete Seeger. Vem agora a Lisboa e a comissão que promove esta iniciativa- jornalistas e cantores que se uniram pelo amor à música e pelo respeito por Pete Seeger. As palmas vão todas para este homem , grande e vivo exemplo para cantores populares de todo o mundo, artista ligado aos valores mais simples e belos das tradições culturais americanas e património cultural de todos os homens.

                   …….  

                  Faltava-nos Pete Seeger. Vem agora, finalmente, nestes tempos perigosos, com as suas canções de luta e de esperança.

                   ( Novembro de 1983).

                     Eu sei que o texto é longo mas acho que vale a pena ler. E vale a pena e é obrigatório glorificar este Homem.

                     Já não existem Homens como este!

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