FERNANDO TORDO

                 Fernando Tordo tem 65 anos e eu tenho 60. Acompanho, sigo e admiro-o, portanto, há quase cinquenta anos, tantos quantos tem de carreira. Cinquenta anos!

                Tomou a decisão que tomou ao fim destes anos todos e, na sua idade, é um acto de grande coragem, absolutamente significativo e uma violenta pedrada no charco.

                Mas Fernando Tordo foi sempre um Homem corajoso : antes e depois do 25 de Abril que, diga-se, abraçou e a ele se dedicou de corpo e alma. Antes do 25 de Abril, juntamente com o Poeta ARY DOS SANTOS, deu um contributo essencial para a grande mudança da Música Portuguesa, na senda de Zeca Afonso, Adriano e outros, no afundar do “ Nacional Cançonetismo “, como chamou João Paulo Guerra àquela música delicodoce que “adormecia” o Povo nos Serões para Trabalhadores e elegia os artistas da Rádio e que muito jeito deu ao antigo regime, e no aparecimento de uma Música nova, fresca, interveniente e moderna  que, alicerçada em grandes Poetas, contribuiu para a criação de uma visão diferente da cultura e para o alertar das consciências em relação à situação vigente.

                Lembro-me dele desde os “SHEIKS” e, depois, nos heróicos Festivais da Canção que as forças musicais progressistas utilizaram à exaustão como veículo prioritário à tal mudança e alertar. Uma mudança premonitória que se começou a notar nas canções que profusamente lançavam a concurso e que inevitavelmente, apesar da ditadura e da censura, passariam na TV.E canções escritas pelo ARY e compostas pelo TORDO tornaram-se conhecidas e património dessa mudança: O Canto Franciscano, O Café, o Canto no Deserto, o Cavalo à Solta, a Tourada.. e tantas mais!

                Depois do 25 de Abril recordo-me que ele, e outros como Paulo de Carvalho e Carlos Mendes ( três amigos) se agregaram no Partido Comunista e, num trabalho de heroicidade sem  nome, calcorrearam todo o país, cantando para todos: para os trabalhadores do campo, para os mineiros, para os pescadores, para todos os operários. E a troco de nada deram tudo. Recordo-me de assistir, nos anos quentes, a um concerto em Esposende, em 1975, na Escola Primária, com ele e o Paulo de Carvalho. Vinham dos Arcos de Valdevez, onde certamente tinham cantado para meia dúzia de pessoas e pararam em Esposende, onde também actuaram para meia dúzia de pessoas. Da mesma maneira como se estivessem a cantar para  meia dúzia de milhar de pessoas. Eram assim os tempos heróicos! Nós íamos ouvir mas não sabíamos se tinham almoçado ou jantado, se lhes pagavam a gasolina, se recebiam algo, se era só militância…passava-nos ao lado. E, no entanto, eles eram grandes Artistas e grandes Compositores : os melhores entre os melhores!

                Mesmo assim ele compunha e, alucinadamente com o ARY, ele compunha e cantava coisas novas: O Novo Fado Alegre, o Fado do Trabalho, o Fado de Alcoentre, a canção dedicada aos trabalhadores do campo mortos pela GNR, o Casquinha e o Caravela, o Fado do Cheirinhos… e compôs para o CARLOS DO CARMO muitos fados e canções, de que a ESTRELA DA TARDE é o expoente máximo e, sem dúvida, uma das melhores canções de sempre da música Portuguesa, Com poeta de ARY DOS SANTOS, claro!

                E cansou-se. Ele e outros cansaram-se de só dar. Legitimamente cansaram-se. E ficaram visados, marcados.

                As Revoluções, todas as Revoluções, maltratam e engolem os seus heróis.  É histórico. E, por isso, eu nunca cedo à tentação de acusar alguém que tanto deu de falta de coerência ou egoísmo quando mudam ou param. Para mim o que fizeram é eterno e ninguém lhes tira : o mérito, a coragem, o altruísmo , a dedicação e o empenho numa causa ou luta. Fizeram e muitos que depois criticam nada têm para apresentar. Mas também são sempre estes os que criticam… Porque estes, que pensam sempre em si, no seu pequeno mundo, na sua família e no seu trabalho, nunca poderão entender que Eles também têm família, também pensam no futuro, no seu e no dos seus e têm, muitas vezes, por falta de reconhecimento e de trabalho, direito ao desânimo!

                Mas não foi a primeira vez que o Fernando Tordo abalou : já uma vez, por motivos diversos, partiu para os Açores, mas acometido da mesma tristeza. E escreveu, aqui já sem o ARY : “Adeus tristeza até depois, sinto-me triste por saber que entre os dois, não há mais nada pra fazer ou começar, chegou a hora de abalar…”.

                E agora, aos 65 anos, desiludido e triste, à semelhança e todos nós, abalou para tratar da vida, porque aqui, um compositor reputado, com um passado glorioso e enaltecido, não é reconhecido nem tem trabalho. Mas nem a ele nem à maioria dos trabalhadores da Cultura, sejam eles músicos, cantores, actores, escritores, cineastas ou compositores. E muitos vivem miseravelmente. E isso Fernando Tordo, na sua decência, não aceita.

                E decide ir trabalhar para o Brasil, país diverso, controverso e contraditório, mas onde os Artistas são respeitados, reconhecidos e, até, glorificados! Falar no  Brasil de um Chico  Buarque ou de um Caetano é falar de Deuses, património intocável que faz parte intrínseca da identidade do País. Como aqui Fernando Tordo e outros deveriam ser.

                Por isso eu afirmo : FERNANDO TORDO devia estar no PANTEÃO: dos VIVOS!

                Um abraço e um Obrigado, FERNANDO TORDO.

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