O CONSENSO É NECESSÁRIO : SERÁ ELE POSSÍVEL?

                 Acerca do Prefácio do novo livro de Cavaco Silva – Os Roteiros do último ano de mandato- Ferreira Fernandes escreveu no DN um excelente e lúcido artigo a propósito do Prefácio do referido livro e da solução reiterada por Cavaco para a solução dos problemas nacionais: o consenso partidário! Mais propriamente de PSD, PS e CDS, os partidos do Sistema e do Memorando e porque, segundo ele, decisivo para o pós Troika,

                Diz Ferreira Fernandes que ao invés de “ Prefácio” deveria chamar-lhe “ Posfácio” pois qualquer consenso, a ter importância decisiva, deveria ter sido conseguido no eclodir da crise, em 2009, e deveria ter sido mantido nos anos subsequentes, 2010, 2011 e 2012, pois que a situação atingida em grande parte era a esses partidos devida. E não agora, acrescento eu, quando as suas relações estão completamente estilhaçadas, pelos constantes “ passa culpas”, pelo desprezo que é nutrido por qualquer oposição e pelas desconfianças que se geram quando só se pede consenso para a validação perante a Troika das políticas penalizadoras tomadas. Mas Cavaco nessa altura estava noutra, preocupado com as  escutas e como domar a fera que o atazanava!

                Concordo com Ferreira Fernandes na globalidade mas, de qualquer maneira, independentemente do que diz Cavaco, pois me diz muito pouco e não sustenta a minha opinião, eu tendo a pensar que, nas circunstancias actuais, esse consenso feito plataforma de entendimento, em aspectos básicos, concretos e definidos é necessário.

                 Poderia ser uma importante arma, talvez uma das últimas armas que nos restam, para conseguir os apoios permanentes que necessitamos para, em condições mais satisfatórias, recuperar a nossa economia e garantir alguma estabilidade futura. E a seriedade que tal transmitiria seria benéfica para a reestruturação e renovação da nossa dívida e para a redução do seu peso nas nossas contas. E dando esse algum conforto, ela pudesse influenciar positivamente as taxas de juro aplicadas à  nossa dívida, reduzindo a sua ordem de grandeza e possibilitando a sua transformação em maturidades  mais alargadas.

                Mas aqui convém que não  nos iludamos. Muito embora a previsão de Machete se tenha realizado e as taxas de juro das  nossas Obrigações a 10 anos tenham sido hoje transacionadas abaixo dos 4,5%, ao contrário dos comentários de alguns governantes que dizem ser esta realidade consequência das políticas do Governo e dos dados económicos que apresentamos, pode até sê-lo em pequena parte, a verdade é que se trata de uma situação circunstancial, que pode rapidamente ser alterada, derivada da liquidez que tem existido  nos últimos tempos nos mercados, devido à menor apetência por estes pelas dívidas das potências emergentes, que vêm apresentando dados económicos menos bons, e que os leva a procurar, com preços mais razoáveis, as dívidas de países como o  nosso. Mas a incerteza quanto à situação da Crimeia e tudo o que envolve a tensão por aqueles lados existente, tudo pode mudar… Mas é reflexo de alguma confiança? É, claro! E é positivo? Claro que é!

                Mas essa confiança, sendo fornecida em primeiro lugar pelos dados económicos, também o é pela estabilidade política, principalmente quando esta é feita de compromissos objectivos. E o financiamento da economia e o alívio do peso da dívida são, neste momento, fulcrais para o estabelecimento de políticas económicas e socias mais justas

                 Mas, voltando à necessidade de consensos, vejamos:

1-      É ou não verdade que, daqui para a frente e perante a situação criada, seja qual for o Partido que ganhe as eleições, o essencial da política restritiva e de contenção do défice será mantida?

2-      É ou não verdade que, sem estabilidade política e sentido de futuro, seremos sempre objecto de desconfiança e receio por parte das Instituições Internacionais?

                Perante estas evidências e inevitabilidades não será mesmo de levar a sério o estabelecimento de uma plataforma mínima para uma governação estável?

                Eu, até aqui, como repararam, estou a raciocinar muito institucionalmente mas, abstraindo-me daquilo que é o meu pensamento mais profundo e do que eu penso que deveria ter sido feito e não foi, a grande verdade é que sendo estes três Partidos os culpados pelo trajecto seguido e pelas suas consequências adversas, sendo que têm sido eles também quem exclusivamente têm dividido o “ bolo”, será justo e urgente chamá-los à responsabilidade de apagarem o fogo que atearam.

                Mas temo que esteja simplesmente a delirar!

                É claro que nunca irá ser fácil eles  “repartirem” as suas prerrogativas, para não dizer direitos adquiridos ( qual usucapião ), nem “ repartirem “ a máquina do Sistema.

                Eles preferem governar à vez. Com uma coligação a dois já é o que se vê, É que quando estão lá, eles colocam todos os seus sem qualquer vigia ou complicação. podem depois sair do Governo porque eles já lá estiveram, já programaram as suas vidinhas, tiveram tempo para ” armadilhar ” o corredor, de lançar as suas redes, de fazer o trabalho de casa, em suma. E depois que venham os outros… eles farão a mesma coisa e depois eles voltarão, para satisfação de mais uns quantos. E assim sucessivamente…

               Mas há um outro lado da coisa, um outro lado do problema, e este, sim , um problema: a falta de liderança na Europa e no Mundo. Com quem negociar? Com quem dialogar e estabelecer acordos? Onde moram os centros de decisão e onde estão as referências democráticas e de Poder?

              As Nações Unidas, como dizia hoje o Prof. Adriano Moreira, estão transformadas num ” templo a um Deus desconhecido”, onde vão rezar mas que não responde a nada e as suas Instituições, a FAO, a UNESCO etc. têm cada vez menos importância e são cada vez menos preponderantes. O G20 não está coberto por qualquer Lei e existe, transcrevendo mais uma vez AM, para dar credibilidade aos credos dos mercados. Até convidaram o Papa Francisco para lá ir, mas imperou o seu bom senso e não foi. E a Europa? Está em pousio, como diz AM! E nela só existe a Chanceler : A Rainha da Europa. A temível Rainha, a quem todos prestam juramento e dela esperam um acto misericordioso…que nunca vem!

                E, ainda por cima, assiste-se ao ressurgimento de algo que achávamos impensável e julgávamos enterrado pela História: o emergir em força de partidos da extrema direita e fascistas. E isso é muito, mas muito negativo. é um retrocesso muito perigoso a acrescentar a muitos outros.

                Mas há, no entanto, um factor positivo em marcha, que são as manifestações  da sociedade civil, que acredita que o imprevisível ainda terá a sua oportunidade. E como disse Pete Seeger aos manifestantes do ” Occupy Wall Street” : ” Desconfiem sempre dos grandes lideres : procurem encontrar muitos pequenos líderes”.

                E estes fazem-nos ainda ter fé numa vida futura com dignidade, porque o problema central da economia e da vida tem que continuar a ser sempre este: TER PÃO NA MESA E TRABALHO!

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