CARTA ABERTA AO DR. TOZÉ SEGURO – 2ª e última?

Esta é a segunda carta que lhe escrevo e será, provavelmente, a última. A outra foi escrita nos idos de Novembro de 2013 e nela eu afirmei que o Dr. Seguro não me entusiasmava e que sendo eu um potencial votante no seu partido o Sr. Dr. Seguro me devia tentar convencer. Ficou deveras claro que eu, particularizando, representava uma parte importante duma esquerda descomplexada e aberta. E referi, igualmente, que V. Exª me tinha surpreendido com a sua perspicácia ao resolver não fazer nada de surpreendente e inovador porque estava convencido que eles iriam cair de podres e escaqueirados por quezílias internas.

Mas isto já foi há “ long, long time ago “, passou muita água por debaixo das pontes e aconteceram as Autárquicas que V. Exª ganhou. A mais retumbante vitória de sempre, segundo o Sr. Dr., mas que os invejosos de sempre classificaram de “ pírrica”, os que estando dentro são raivosos e estão sempre contra de “ pífia” e outros mais benevolentes de “ muito curta”. E assim transformaram, eles mais essa panóplia de comentadores que só o sabem denegrir, uma vitória retumbante, que o Sr. Dr. estava convencido ser aquela mola impulsionadora que levaria o de Belém a convocar eleições antecipadas e dela nascer a maioria absoluta com que o Sr. Dr. tanto sonha nas horas infinitas que passa no seu gabinete jogando a “ batalha naval” , do mesmo modo que eu faço o “ Sudoku”, mas aqui é diferente porque aqui eu exercito os neurónios, num acontecimento inócuo.

Mas o Sr. Dr. intrepidamente lá continuou o seu caminho, fazendo uma oposição “ responsável” e ao contrário dos outros, os “ irresponsáveis” que iam para a rua e lançavam manifestos, o Sr. Dr. preferia louvar o seu deus Hollande que, afinal, se verificou ter pés de barro. E fora o tempo que passava no seu gabinete trabalhando, trabalhando arduamente, na Assembleia onde jaz sentado a maior parte do tempo, lá faz de quinze em quinze dias umas perguntas ao Governo, que sempre lhe recorda que o seu Partido assinou o Pacto e lhe pergunta o que apresentaria em alternativa! Mais emprego e mais investimento responde V. Exª. E quanto às políticas restritivas e de ajustamento decorrentes desse mesmo Pacto? Que quando for Governo não aumenta mais impostos e vai repor as pensões, responde o Sr. Dr.. E sempre de um modo responsável, muito responsável…com eles a rirem…

Houve uma altura, durante aquela crise provocada pelo pequeno príncipe da direita, em que o Sr. Dr. pugnou por eleições antecipadas. Mas o de Belém, ansioso por os meter todos no mesmo saco acenou-lhe com um acordo qualquer, mas o Sr. Dr. com aquela visão que todos lhe gabamos, achou que era pedir de mais e declinou. A sua responsável conclusão era evidente: poderia ter eleições mas se assinasse o acordo era mais que certo que as perderia. E o Sr. Dr. muito responsavelmente deixou que lho propusessem… E saiu tudo furado!

Mas agora com as europeias é que era! O Povo zangado, esvaído e desempregado iria dar uma forte lição de sabedoria e saberia corporizar o seu descontentamento nessa única alternativa viável e segura : votar em si Dr. Seguro. Era mais que certo e seguro. A vitória iria ser tão retumbante que obrigaria o de Belém a demitir o Governo e convocar eleições antecipadas onde o Sr. Dr. seria elevado à categoria de grande vencedor e poderia finalmente colocar em prática todos  aqueles exercícios de “ batalha naval” em que tanto se empenhou. Como eu quando faço com o “ Sudoku”… Mas é diferente porque aqui eu exercito os neurónios!

Mas o Dr. Dr. Seguro é um homem prudente e seguro. E seguro de que seguramente estará sempre seguro dentro desse seguríssimo bloco central e dessa mais que segura grande família europeia a que seguramente pertence, foi com toda a segurança votar o Tratado Orçamental. O Povo nem o levou a mal : já sabia da sua segurança! E quando outros menos seguros lançaram um manifesto apelando à inevitável reestruturação da  nossa dívida o Sr. Dr., dentro do seu perímetro de segurança, nada disse. Ou disse que não era o tempo seguro.

Mas chegou finalmente o grande dia, o dia da verdade. As sondagens davam-lhe uma vantagem ainda fora da tal zona de segurança mas, perante isto, o Sr. Dr. disse aquela frase segura que todos dizem : que sondagens são sondagens… e que a campanha lhe mostrava a grande vitalidade do partido e o Sr. Dr., aonde não havia ninguém, via moles humanas arrebatadas e em arruadas de meia dúzia via gente em delírio com as suas propostas a escutá-lo. A escutar atentamente o que Sr. Dr. tinha para dizer. E eu quero-lhe dizer que isso é coisa de profissional : actuar para 6 como actuaria para 6.000. Falar para 60 do mesmo modo e com a mesma convicção com que falaria para 60.000! Há quem, com maldade, lhe chame alucinação. Eu chamo profissionalismo, está a ver Sr. Dr.?

A vontade de dar a tal “ abada” era muita e quando surgem, às oito da noite, as primeiras sondagens feitas à boca das urnas havia um intervalo que, na melhor hipótese, lhe seria bastante favorável, isto é: se o mínimo da Coligação fosse  o resultado definitivo ( 25%?) e se o máximo do seu Partido também o fosse ( 36-37?). E como resultados definitivos só haveria às dez da noite o seu candidato Assis resolveu jogar as fichas todas : reclamou vitória retumbante e derrota devastadora da Coligação e da qual esta e o de Belém deveriam tirar as ilações imediatas. E os outros todos lá lhe iam dando os parabéns. Mas esse maquiavélico Assis, sabedor que tendo jogado as fichas todas esperando uma coisa intermédia, perguntado sobre as consequências políticas remeteu para si. E o Sr. Dr. num louvável exercício de camaradagem e lealdade democráticas não o contradisse e, apesar da diferença nem metade do esperado ser, o Sr. Dr. confirmou Assis : foi uma vitória retumbante  e histórica. E o seu discurso foi empolgante. O Sr. Dr. empolgou-se mas, estranhamente, os seus acólitos permaneciam colados às cadeiras e de caras fechadas. No fim deram uns abraços, uns beijinhos e foram-se embora, ver o que diziam os outros, que ficaram aliviados e ouvir os tais comentadores que, como toda a gente, eu incluído, viram apenas e só uma vitória.

Mas lá vieram os raivosos de sempre dizer que a vitória foi “ pífia”, os invejosos afirmar que foi de “ pirro” e os conciliadores conceder que foi “ curta demais”. Eu logo comentei no Facebook que “ O Marinho tramou o Seguro” e outros, mais responsáveis, que V.Exª estava metido num 31! E agora Dr. Seguro, como vai assegurar a sua segurança? Vai fazer um seguro? Olhe que vai ser preciso pois, pelo que me é dado observar, as facas já estão no ar e as lanças desembainhadas! Você segure-se Dr. Seguro.

E não é que esses ingratos todos que agora o questionam não conseguem reconhecer que o Sr. Dr. ganhou todas as eleições em que interveio? E que não havendo duas sem três ganharia também a próxima? Que raio quererão eles mais?  E esse Costa não está bem onde está, nessa Câmara que no fim se semana até foi a maior Câmara do Mundo? Que raio verá ele e os outros que também já estão perfilados que eu não veja? Que se passa, afinal?

Eu agora, para memória futura porque não lhe auguro grande segurança nesse seu inseguro lugar, vou ajudá-lo, vou desinteressadamente ajudá-lo para que na próxima seja melhor assessorado, escolha melhor os seus conselheiros, para que não jogue tanto à “ batalha naval”, como eu jogo ao “ Sudoku”, mas é diferente porque se jogasse ao “ Sudoku” exercitava melhor os neurónios e para que aprenda de uma vez por todas o significado daquela terrífica frase “ de vitória em vitória até à derrota final…”.

E eu que, como já lhe confessei não votei no seu Partido ,mas sou seu amigo e até já lhe confessei a minha admiração pela sua genialidade, vou-lhe dar umas “ dicas”:

1-      Nós temos uma dívida que, em percentagem do PIB produzido, é uma das maiores do mundo e vivemos com a Moeda mais forte do mundo. Como se pode governar e crescer assim? Já tinha pensado nisso?

2-      Como pode a  nossa economia crescer pertencendo ao Euro, essa tal Moeda forte, e competir dentro desse Euro? Já tinha pensado nisso?

3-      O Sr. Dr. diz que quer crescimento e que temos que criar emprego mas, por essa Europa fora muitos dizem o mesmo mas o certo é que é certo e sabido que tal nunca acontecerá no Euro. É impossível! Já tinha pensado nisso?

4-      O Sr. Dr. até pode dizer que tem ideias, como as 80 que apresentou, e convencer as pessoas que tem ideias, mas as pessoas já há muito sabem que o Sr. Dr. nunca as poderá concretizar porque lhe faltarão sempre os argumentos. Os instrumentos, como a Moeda própria, por exemplo. E as pessoas não acreditam nessas suas ideias todas, porque vêm o mesmo em França, na Espanha, na Itália. E castigam eleitoralmente quem apresenta essas ideias fátuas. Já tinha pensado nisso?

5-      E que, ainda por cima, lhe faltam os tais temas “ fracturantes” para apresentar, porque o ladrão do Sócrates lhos roubou todos, como já tinha roubado ao Bloco e este já vinha implodindo. Já tinha pensado nisso?

6-      E acerca da Europa que mudança poderá o Sr. Dr. exigir se apoiou o Tratado de Lisboa, o Tratado Orçamental e não apoia a reestruturação da dívida? Já tinha pensado nisso?

7-      Portugal precisa de instrumentos para se aguentar, para continuar a ter dinheiro e para depois crescer : Soberania e Moeda. Já tinha pensado nisso?

Temo que nunca tenha pensado em nada disto. Não, nunca pensou porque sempre preferiu jogar à “ batalha naval”, como eu jogo o “ Sudoku”, mas aqui é diferente porque aqui eu exercito os neurónios…

Atenciosamente,

 

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