“O SISTEMA”

Ouve-se com muita frequência esta palavra, com comas, dando-lhe no entanto uma conotação e significado diferentes daquilo que ela realmente é na sua origem : um conjunto de órgãos, de corpos, de estruturas e de funcionamentos que compõem um todo organizado para uma finalidade, sistematizado e com coerência e sinergias próprias e podemos, para tal, referir o “ Sistema Solar”, o “ Sistema de Saúde”, o “ Sistema de Ensino”, o “ Sistema Digestivo”, o “ Sistema Nervoso”, “ Sistema Financeiro”, o “ Sistema Político, etc. etc. etc.
Na verdade este “ Sistema” ou “ Sistemas” de que irei falar também os vemos associados a algo que também é organizado e coerente quanto aos fins, mas estão alheados do regular funcionamento da sua cadeia orgânica, pela apropriação do seu corpo e dos seus canais vitais. Por isso e em particular nos Sistemas que são geridos e manobrados pelo ser Humano, todas as organizações que deveriam concorrer para o bem comum e para a igualdade de acessos, são normalmente “ assaltadas” e condicionadas por interesses corporativos organizados em função da manutenção de um “ status quo” que mantenha as rédeas dos poderes nas suas mãos. A isto eu chamo e chamamos “ O Sistema” ou “ Os Sistemas”.
Sendo que os Sistemas são por definição órgãos de organização de Poder ou Poderes, que obedecem a uma lógica de solidez sistematizada e inquestionável, o seu controlo e o seu condicionamento por agentes que os utilizam para fins autónomos e não gerais como deveria ser, concorre para a sua fraqueza, o seu ineficaz funcionamento e pode mesmo conduzir ao seu colapso.
Por isso quando falamos, por exemplo, do “ Sistema Financeiro” deveríamos estar a falar de um Sistema onde a finalidade principal seria a entrega de recursos de aforradores e investidores a entidades apropriadas ( os Bancos) que, com esses recursos, promoveriam a economia e o seu crescimento associando-o à melhoria das condições de vida, em geral. E que, colaborando com Entidades Públicas, promoveriam a implementação de equipamentos e estruturas que também concorressem para o bem público, dentro de uma ordem de responsabilidade de quem gere recursos que não são seus tendo, para isso, uma margem de intermediação ( o lucro) legítima, mas balizada por boas regras e princípios regulados por Entidades superiores, neste caso os Bancos Centrais.
Mas que temos constatado nós? Temos constatado uma progressiva utilização desses recursos para fins especulativos, para actividades e operações de benefício próprio, para actuações concorrências desreguladas e mesmo para actividades menos lícitas e até criminosas. Não querendo especificar porque são do conhecimento de todos, toda esta má utilização dos fundos postos por todos nós à sua disposição, quer através dos depósitos, quer da compra de acções, quer da aquisição subsidiária de dívida pública, vai minando a credibilidade de um Sistema que deveria ser transparente e corroendo a sociedade. As más práticas e os maus exemplos quando complacentemente aceites vão-se tornando regra e por isso e cada vez mais vemos esse Sistema ser tomado por gestores sem escrúpulos, que delapidam as Instituições num jogo de interesses múltiplos, sem que haja a devida regulação. E essa regulação não é eficaz porque quem deveria isentamente regular também faz parte dessa cadeia interdependente e age medrosa e hibridamente.
E é aqui que vimos ter quando falamos concretamente no caso BES, que por si só, dadas as teias de complexidades, de interesses, de dependências, de inevitabilidades e de consequências, pode pôr em causa o próprio Sistema Financeiro e levar de arrasto consigo os Sistemas Sociais e Políticos como têm estado organizados.
Até agora, em casos se alguma similitude quanto à constatação da degradação das atitudes e posturas perante aquilo que deveria ser sagrado – o bem público, temos ouvido dizer amiúde : “ É melhor não mexer na m….. pois mexer pode pôr em risco o próprio Sistema”!” Ele sabe de mais e não poderá dizer tudo o que sabe pois se disser coloca em risco o próprio Sistema”!
Pois sim, mas a que Sistema se referem? Referem-se ao Sistema Financeiro ou Democrático, neste caso, que deveria estar organizado em sinergias conducentes a um mesmo fim e a um mesmo objectivo- o bem comum, ou referem-se ao “ Sistema” que subverte o Sistema e o coloca na eminência da falência?
E assim sendo, porque não “mexer” no “ Sistema” quando é para todos evidente que ele está, qual cancro, a minar e a corromper as células que compõem o bom Sistema? Porque não mexer? Porque põe em causa muita gente, dita importante, que se organizou e criou dependências e teias de cumplicidades e compromissos no sentido da obtenção do Poder e da sua apropriação pela sua superioridade e influência? Sim, e o bem Público? E as Pessoas, as outras Pessoas, as que não fazem parte destas elites? Continua sempre tudo na mesma? Porque não se pode “mexer”?
Não é fácil, não vai ser fácil e nem sei se algum dia será possível. Mas, por enquanto, devemos ao menos ter consciência de que quando, através do nosso voto, legitimamos democraticamente muita desta gente, quando nos damos ao trabalho de os ouvir e quando resignadamente dizemos “ isto nunca vai mudar”, estamos a concorrer para a sua força e poder. E também quando muitos procuram entrar no seu mundo e são complacentes, também eles estão a legitimar esse poder e, assim, nunca iremos a lugar nenhum… e eles poderão continuar a afirmar ou a pensar, numa chantagem sem nome, que “ não podem mexer demais connosco, porque se não é o próprio Sistema que fica em causa e por arrastamento a vida de quem ousar mexer…”.
Por tudo isto eu acho que Ricardo Salgado falará, mas falará só e unicamente o que pretender. Ricardo Salgado protegerá e será protegido. E vai negociar, tudo vai ser negociado, tal como a taxa de 7% (!) de IRS que lhe foi aplicada quando se “ esqueceu” de declarar aqueles milhões todos!
Tudo vai ser negociado, à semelhança do Madoff, que assumiu toda a culpa e deixou-se imolar para libertar todos os restantes culpados. Foi muito rápido o julgamento, a pena estratosférica, mas depressa sairá por bom comportamento… E também ali todos disseram : a Justiça funcionou! Como quando Ricardo Salgado foi levado pela Polícia a depor: A Justiça funcionou! Mas funciona? Veremos…
Mas “Ai se ele fala”! Pois é, muitos até desejariam que ele falasse e dissesse tudo o que sabe…mas há tanta, tanta gente que só disso ouvir já fica com “peles de galinha”. E todos por motivos diversos: pela sua colaboração, pelo seu conluio, pela sua participação, pela sua ocultação, pelo seu benefício, pela sua vivenda, pela sua conta Offshore, pela sua empresa, pelo seu dinheiro lavado com Omo, pela sua aplicação, também pela sua dedicação, pelo favor pedido e cobrado etc. etc. e etc… Mas todos estes, que adoravam o seu “DDT”, acreditam que ele não vai falar, em nome do “ Sistema”, esse “Sistema” que também os há-de matar, mas que tem que funcionar… Sempre e para sempre. Amen! Assim seja, nas Ilhas Caimão, no Luxemburgo, em Gibraltar, no Panamá, em Miami e na Comporta!
PS- Estava eu hoje de tarde a olhar para a TV sem nada ver ou ouvir quando, de repente, vejo um senhor já de idade respeitada a perorar numa, mais uma, Comissão de Inquérito, acerca dessa premência chamada “CONTRAPARTIDAS”. Parece que era chefe do acompanhamento. Como há o chefe da execução, o chefe da vistorização, o chefe da redacção e o chefe da conclusão! Que, segundo ele, são “ meros contratos de promessa, coisas que se prometem fazer para alcançar o negócio. Assim como uma promessa de casamento. Promessas, apenas promessas…”. E que “uma Comissão nomeada para o efeito pela Comissão Europeia, coisa legal e solene portanto, as via com bons olhos porque são importantes para o desenvolvimento económico e tendem a fortificar as relações económicas…”. Que poderia ele fazer mais? Sim, ele mero gestor de promessas?
Portanto quando lhes prometerem contrapartidas desconfiem…são apenas promessas!
E assim vai o Mundo…

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