E AGORA, FALO DE QUÊ?

Do que pensava falar já não posso e do que posso já não sei.

Nestes últimos e estonteantes dias já todos disseram tudo e já toda a gente opinou de tudo e acerca de tudo numa linguagem de um lado politicamente correcta, a oficial, e do outro lado, a dos fóruns, das redes sociais etc., mostrando que ainda existe uma clivagem evidente na nossa sociedade e que se reflecte na linguagem dos extremos : os que amam e os que odeiam. E esta dicotomia diria eu irracional é mostra de algo que esteve sempre presente ( vide 74/75 ) e que só um período de relativa estabilidade escondeu e fez esquecer. Mas não desapareceu.

Eu continuo sem perceber, por exemplo, o que leva tanta gente a ter tanto ódio, um ódio figadal mesmo, a José Sócrates. E, também, o que leva tanta gente a nutrir tanto desprezo por Cavaco. E basta um qualquer episódio que, por motivos menos bons, os coloque no topo da actualidade para que todo esse ódio figadal extravase e todo o desprezo que nutrem de manifeste. E, já agora, lateralmente a este enunciado, também não consigo entender a bonomia com Passos Coelho. Um enigma, para mim.

No entanto, segundo todos dizem, as Instituições continuam imunes a tudo isto, agindo consoante as suas formalidades, reinando, no entanto e para já, o tacticismo.

Mas representam ambos o quê ( Sócrates e Cavaco)? O problema é que representam ambos o mesmo embora com concepções e resultados diferentes. Ambos emergiram de fora do “ Sistema” e ambos pretenderam influenciar e transformar esse mesmo “ Sistema”. Um, Sócrates, mexendo e alterando “ Status Quos” nunca tocados ou erradicados de alguns senhores do “ Sistema” e o outro, Cavaco, dando a estes, e só a estes, o benefício e o usufruto das benesses que a prosperidade e os Fundos da CEE trouxeram.

Mas estes sentimentos diametralmente opostos evidenciam, no entanto e em meu entender, um aspecto conclusivo fundamental: é que a Esquerda é bem mais tolerante do que a Direita e aceita bem melhor essa radicalidade. E basta, por exemplo, como já citei, ler artigos de opinião  nos jornais, ler comentários nas redes sociais ou ouvir os fóruns da TSF ou Antena 1 para facilmente isso concluir.

O ódio alucinado de toda a Direita a Sócrates, e não apenas dos sectores que ele ousou influenciar, é irracional porque, pese embora a sua postura normalmente ofensiva, advém de afrontamentos a interesses instalados, de quem pensava possuir já deles “usucapião” e ser, portanto, de inteira justiça de interesse geral fazê-lo e de posições revolucionárias sobre temas “tabu”, fracturantes e delicados que muita gente ainda conservadora e retrógrada nunca desejou aceitar.

No outro quadrante o “ desprezo” que a Esquerda sente por Cavaco é apenas isso: o desprezo por quem não sentem qualquer afinidade, por representar características de pensamento e comportamentais retrógradas, ostensiva atitude de farisaica superioridade moral e em quem não sentem nem reconhecem capacidade nem centelha, nem idoneidade por todos não representar.

Mas vivemos há muitos anos neste equilíbrio porque, sejamos sérios, a seguir aos conturbados tempos de vincado radicalismo o PS, quando conquistou o Poder, restabeleceu direitos ancestrais dos ricos e poderosos ( desnacionalizou a Banca, entregou terras, recebeu os expatriados etc.), proporcionou-lhes a reintegração e  cedeu-lhes o poder financeiro, o poder económico e o poder de influência. E restabelecidos esses pressupostos da “ legalidade” roubada pela Revolução, tudo começou a andar em águas calmas, eles reforçaram o seu poder, a “ alternância” passou a ser um dado efectivo e a entrada na CEE tudo ratificou.

Aquilo que as classes mais baixas tinham conquistado foi, em nome da eficácia, da racionalização, da produtividade e da competitividade, sendo perdido e a tomada do poder político pelo poder financeiro deixou-as num “ gueto”. No salve-se quem puder e no roube-se o que se puder elas não cabiam e ordeiras e obedientes passaram a ser o alvo de todas as políticas restritivas que as crises futuras provocaram.

E a Direita, dentro dessa “ alternância” apareceu sempre revindicando a coragem de corrigir comportamentos consumidores dessas classes, que se arvoravam o direito de também ter acesso às coisas que se lhes propunham, de coloca-los no seu devido lugar e restabelecer a velha e bendita ordem.

Sócrates representou inequivocamente uma pedrada no charco e ousou afrontar essa velha ordem restabelecida: meteu-se com os Juízes e estes nunca lhe perdoaram. Meteu-se com os Políticos, reduziu-lhes os mandatos e regalias eternas e estes nunca lhe perdoaram. Estabeleceu tectos para as Reformas de luxo e estes nunca lhe perdoaram. Meteu-se com alguns lóbis e estes nunca esqueceram. Pôs em ordem as Autarquias. Simplificou serviços e a “dificuldade” das coisas deixou de ser argumento para o funcionário, o engenheiro, o fiscal, o…levarem mais uns cobres e tudo isto não agradou nada, mas mesmo nada a todos estes grupos de interesses, a gente com hábitos bem estabelecidos e tornou-se odiado. Ainda por cima ele, um tipo cheio de defeitos, um engenheiro feito à pressa, que queria tomar a TVI e domar a Moura Guedes! E a resposta foi violente, sempre violenta e, finalmente, foi elevado à categoria de “ coveiro” deste País. Que mais faltaria?

Mas a Direita reconquistou o Poder e reconquistou-o em momento difícil. Mas a sua herança sempre esteve presente para o melhor e para o pior. O melhor foi sempre, no entanto, rebatido e o pior apropriado e usado para rebater. E bater, nele e em todos nós. Mas desesperadamente incapaz, por incompetência e soberba, de ultrapassar a situação herdada, temendo perder o Poder alcançado para um Político assaz experiente e assumidamente a antítese do anterior, pela sua ponderação, capacidade de diálogo e reputação imaculada, esta situação de Sócrates ( Criada? Antecipada? Inexorável…não sabemos) aparece ao Governo como sopa no mel e faz retornar os velhos ódios.

Como será daqui para a frente? Quando acabarão o politicamente correcto e as tréguas? Não sei. O que sei é que, todos temos observado, nos mostram diariamente e de forma ostensiva tudo o que deveria estar em segredo e nos fazem crer que tudo já é definitivo.

E já não sabemos se podemos falar ou não. Não podemos falar do que acontece porque nada sabemos. Só alguns jornais sabem e vão derramando gota a gota o que “ sabem”. Falarmos nós é perigoso porque, aí, é imiscuirmo-nos na Justiça e configura delito. Teremos que falar, como antigamente, por metáforas ou alegorias ou por código?

Tomar partido como fez Mário Soares é impossível porque é impróprio de um cidadão responsável e põe em causa a Justiça e os seus órgãos e o próprio sistema democrático! Todos os comentadores o disseram e até o Daniel Oliveira resolveu alinhar. Tomar partido, dizem também, é interferir no processo, que está em segredo de justiça embora não esteja e é inadequado porque o réu nem sequer ainda é réu embora já esteja condenado e a cumprir pena. Mas entretanto de alguns jornais jorram notícias, números, esquemas e premonições, numa deriva legalizada. Eles sim, eles podem!

Afirmar-se, em nome da verdade, que apesar do sucedido não se deixa de ser amigo do “ cujo” é um suicídio e louvar a sua governação e obra um “ Hara Kiri” obsoluto. Cúmplice de certeza, será de imediato colocado no “ saco” dos que são contra as “ evidências”, essas evidências que eles dizem há  muito verem e que só não as via quem não queria ver.

E gostar de Filosofia? Isso é que não. Mas o “ cujo” estudava Filosofia para quê? Para nos ludibriar, tentar enganar, para nos encher os olhos e ouvidos com frases feitas e citações tonitruantes? Ora, Filosofia… Almoçou com Pinto Monteiro, o Ex? Parece que sim, confessaram, e dizem terem falado de livros. E que a conversa teria sido amena e despretensiosa. Qual quê? Conversa amena, sobre livros, com o Ex ? Tem que ser investigado. A que sucedeu ao Ex vai mandar investigar. Tudo tem que ser investigado. A Ex, agora do “ cujo”, de nome Fava, descaiu-se e, depois de visitá-lo, disse que ele estava com uma “ postura filosófica”. Só pode ser linguagem encriptada e tem que se investigar. Ali há coisa! Filosofia….

Os amigos não poderão mais visitá-lo sem serem “desratizados”. Ou irem com aqueles fatos tipo apicultores porque o “tipo” está infectado. Tem tudo : é sarnento, piolhoso, ulcerado, leproso, ebolizado, encolerizado, empestizado, sidado…tudo. E é um perigo para a saúde pública. E visitá-lo, só com muitos cuidados. Cuidados que Mário Soares não teve e até se indignou e aí foi chamado de tudo. De velho senil e idiota, que também devia estar preso por tráfico de diamantes, de marfim, de ouro, de jóias, de pretos…um velho “choné”…

Está tudo escrito, já foi tudo escrito e dito. Falar agora, de quê?

Do Seguro já não posso falar porque já era, embora não fosse amigo. Do Costa, nem pensar porque é suspeito de ser o amigo “ number one”. De Cavaco, para quê, se ele está no limbo? Do Passos, do Passos não porque é um político diferente. Do Paulo? Desse não posso porque não há documentos. Desapareceram, voaram, foram com as andorinhas. Do Barroso? Esse também não porque foi condecorado. E do Juizão Carlos? Bem, deste que é de Mação mas insuspeito de ser “ Masson” é que não. É uma Divindade. O único Deus, alias. Absolutista! É melhor não escrever nada. É o melhor.

Mas falar do Governo e da sua política? É para desviar a atenção, dirão logo. Das evidências que dizem há muito verem e que só não via quem não queria. Quem era cego. E de que valerá a palavra de um cego se ele não consegue ver? Falar do quê? Do Tempo? “Eles” agora acertam sempre. Dizem que vai chover e chove. De Futebol? Proibido porque aí cairíamos em Jesus e é tema “ tabu”. E Jesus está sempre certo. Não é criticável. Só os Filósofos. Só os Filósofos são criticáveis. Filósofos…Ceguinhos…

Olhem vou é beber um “ Sarmentinho”, pois de Sarmento não gosto; vou acompanhar com Poiares Verde pois maduro faz-me mal; degustar um Aguiar Tinto pois o branco não me cai bem ( fui buscar ao Lobo Antunes, já repararam ) , para acompanhar um “ Pica no Chão” pois coelho eu não aprecio…

E pronto, já falei.

E viva a Filosofia!

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