A CORAGEM QUE NASCEU DO DESESPERO.

Nota introdutória : Este título não é meu, li-o algures. O restante é, eu assumo!

Já toda a gente escreveu e falou sobre a Grécia e sobre o que lá sucedeu e não há quem não opine e dê parecer. Eu não fujo à regra mas tentarei olhar o tema sob um prisma diferente e pessoal e, mesmo não tendo conhecimento concreto e profundo sobre a realidade sócio-política deste País, vou exprimir aquilo que eu penso que terá acontecido e das razões que concorreram para  uma votação tão insólita, pelo menos para nós ocidentais e membros de uma sociedade mais ou menos homogeneizada, e tão fora dos ditames usuais.

A primeira coisa que fixei dos escritos que na imprensa de hoje li foi que “ a festa foi contida”. Que os festejos não foram, portanto, desbragados e desmedidos e que as multidões não foram para a rua para celebrarem um grande feito pátrio ou uma libertação batalhada e que, consumado seu corajoso acto, ficaram no seu aconchego esperando o que a seguir virá e que definirá ou não o seu futuro. Fizeram o que tinham que fazer, o que a sua consciência mandou, e ficaram à espera.

Porque, tal como introduzi, a coragem da mudança nasceu e cresceu com o desespero. Mas, tendo-lhes sido apresentada uma proposta de mudança alicerçada e séria, a esperança suplantou o medo. E os eleitores desesperados e sem qualquer vislumbre de futuro deram a vitória àqueles que há muito lutavam contra uma austeridade imposta como punição, e da qual nunca se sentiram responsáveis, e preferiram o incerto medo do futuro à miséria do presente. Porquê continuar a confiar em quem neste presente só lha trazia miséria e para o futuro não prometia nada além do mesmo?

A segunda coisa, e esta deixou-me perplexo, foi a maneira quase anedótica, porque desmesurada e incomparativa, como o Bloco de Esquerda tentou fazer sua esta vitória do SYRISA. Assim, mal “ acomparando”, como se a derrota do Pasok fosse a derrota do Partido Socialista Português. Mas não, nada há de semelhança, a não ser serem ambos de Esquerda.

Soube, precisamente por uma Deputada do Bloco, a Mariana Mortágua, aliás pessoa que tem demonstrado alta competência em tudo o que faz, e o que ela referiu faz toda a diferença, que o SYRISA há muito está no terreno, que há muito tempo está implantado na sociedade, que tem muitos quadros de incontestável valor e que, perante tanta exclusão e miséria, criou na sociedade Grega mias necessitada quase como um “ Estado” paralelo, actuando no apoio social aos mais carenciados e prestando serviços médicos e assistencialistas. Ora isto, que faz toda a diferença como disse, mostra à evidência um trabalho de sapa há muito implementado, uma estrutura partidária integrada e engajada, uma qualidade de quadros competente e disponível e uma maneira de fazer política assente no concreto. Haverá algo de comparação com este Bloco de Esquerda? O Bloco tem todo o direito de festejar e até pode fazê-lo dizendo que é um Partido afim e integrado no mesmo quadrante político mas…qualquer parecença é ilusão e o aproveitamento é indecoroso.

Há ainda outra diferenciação que,  no meu entender, ajuda a compreender o fenómeno acontecido e, também, a razão pela qual, em Portugal, os Partidos à esquerda do PS não conseguem, nem tão cedo conseguirão, emular o SYRISA : é que os  nossos nunca desejaram ser Poder e, em momentos históricos, ofereceram mesmo esse Poder à Direita. Nem nunca se posicionaram como Partidos de Poder ou com ambição de lá chegar e sempre se quedaram e contentaram em ser de mera contestação e sempre indisponíveis para qualquer aliança. Mas, claro, sem fazerem o trabalho de casa que o SYRISA fez.  É esta a grande diferença.

É claro para mim que os nossos dois povos não são assim tão diferentes. Mas, apesar de tudo, devo confessá-lo, a situação entre Portugal e Grécia , no que respeita à dimensão do violência do chamado “ ajustamento”, não é comparável. Mas lá como cá há uma significativa parte das populações que prefere viver mal mas viver do que participar em qualquer mudança.  E isto é verdade, como sabemos. É o tal conservadorismo atávico em que foi criado e educado anos a fio, durante gerações mesmo, em que sempre lhes foi incutido o medo a qualquer mudança incerta. É o tão celebrado “ Não te chega para o bife? Antes  no talho que na Farmácia! Não te chega para a Farmácia? Antes na Farmácia que no Médico! Não te chega para o Médico? Antes no Médico que no Hospital! Não te chega para o Hospital? Antes no Hospital que no Cangalheiro…!”. Somos iguais. Perdemos a bravura, somos comodistas e tudo aceitamos, de modo pungente mas aceitamos e aceitamos candidamente quem nos prejudica e  nos faz mal. Somos tolerantes mantendo-nos na nossa pequenez. E só mudamos quando não nada mais há a fazer ou alguém se lembra de ir para a frente e lhes fazer o trabalho. E aí vamos para a rua, emocionámo-nos e fazemos cordões como no caso de Timor, assaltamos Lisboa como  no caso dos Professores, inundamos Lisboa e outras cidades como no caso da TSU…e  depois? Depois vamos para casa, metemos a viola ao saco e continuamos na mesma.

Foi o que aconteceu na Grécia já nesse ponto inultrapassável. E, aí, a coragem nasceu do desespero! Mas porque alguém fez jus à consumação dessa coragem : o SYRISA!

NOTA FINAL: O azedume, a azia e a acrimónia tomaram conta dos dirigentes europeus, que desataram a proferir palavras de circunstância, todas no mesmo sentido, mas de todas eu quero realçar as do nosso inefável Passos Coelho : “ É difícil conciliar  o programa do Syrisa com a s regras da Comissão Europeia”. Coelho dixit.

As únicas regras, não é Passos? As únicas permitidas, não é? Como o programa da Troika. Única solução, não era? Pois é Passos,  viu-se, viu-se e tu é que estás certo, pá! Os outros não, são todos uns burros, não é Pá? Tu é que estás certo ,Pá!

Só fazes o que te mandam, não é? Pois é, Pá!

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