A “ RESPONSABILIDADE ” NA POLÍTICA

SER RESPONSÁVEL ou TER SENTIDO DE RESPONSABILIDADE.

Ao escolher este título para o texto que segue não quero, de modo algum, entrar nos campos da linguística ou da filosofia, mas tão só e simplesmente chamá-lo à realidade do que é a linguagem política e tentar perceber o porquê da palavra “ responsabilidade” ser tantas vezes usada, utilizada e apropriada como conveniência distintiva.

Ser “ RESPONSÁVEL” é, no senso comum, ser capaz de dar conta do recado de alguma incumbência que nos foi entregue, com lisura e correcção e responder perante os outros pelos nossos actos, não indo eles contra as convenções legais e morais estabelecidas.  É assim o arcar com as consequências das nossos próprias acções e tomadas de posição, é fazer o que temos que fazer, encarar os desafios sem esperar que outros o façam por nós e é também não tomar atitudes precipitadas e não fundamentadas das quais nos possamos vir a arrepender. É muito mais que isto, mas é isto na essência.

Trago neste caso à colação esta palavra sob o ponto de vista estritamente político pois o que mais vemos e ouvimos permanentemente, dos nossos e dos outros políticos, é o uso desta palavra à exaustão. Está sempre nas suas bocas de tal maneira que, dita por alguém em concreto, ela se apropria, no seu entender, mais a essa pessoa que aos demais.

Eu já algumas vezes em alguns esporádicos comentários glosei acerca disto, nomeadamente quando aquele dirigente Socialista, de que já ninguém fala, o Francisco Assis, e também o António José Seguro, não se cansavam de a utilizar dizendo que eles, eles sim e só eles, eram “ responsáveis” e, acrescentavam, tinham “sentido de responsabilidade”. E isto sempre no pressuposto exclusivo de que os outros, não concordando ou não agindo como eles, o não eram nem o tinham.

Ora a “ responsabilidade” de que falo e que na sua essência significativa é aquilo que acima citei tem, no entanto, nuances como disse, conforme o uso consequente que lhe queiramos dar e confronta, no final, com o grande dilema :  É “ responsabilidade “ levarmos até ao fim o que nos dita aquilo que tomamos por bom ou é também “ responsabilidade” não o fazer e arrepiar caminho quando concluímos que afinal não o é?

Na política e nos casos específicos de Portugal e Grécia o que é ser “ responsável “ e ter “sentido de responsabilidade” ? É dizer como diz a Direita destes países ( Coelho e Samaras ) que “responsabilidade” é seguir o caminho indicado mas imposto pela Alemanha e seus acólitos prosseguindo, mesmo que cumprindo tratados e acordos, aquilo que tem sido manifestamente um fracasso ou ter “ sentido de responsabilidade” quando se traça outro caminho alternativo que não leve ao abismo? Quem é, afinal, mais “ responsável” ?

Para Passos Coelho o seu seguidismo é “ responsável “ porque não coloca nenhum pau na engrenagem, porque não quer ser voz dissonante e afrontar poderes instituídos e poderosos e di-lo na convicção de que é perigoso, é perigoso mexer naquilo que está definido e na esperança inultrapassável de que, pesem todas as dificuldades e malfeitorias, é bom ser bom aluno e merecer a sua confiança. Pese o seu Povo e as consequências nefastas das suas políticas, rejeitando sempre quaisquer alternativas que não agradem aos seus “ protectores”!

Mas ALEXIS TSIPRAS afirma o contrário : que ser “ responsável” é travar esse caminho já que ele, está por de mais provado, conduzia o seu Povo e a sua Pátria ao tal precipício.

Do mesmo modo quem é mais “ responsável”? Um General que mesmo sabendo que vai perder a batalha e ver o seu exército dizimado avança porque isso lhe foi imposto ou um outro que, ciente do mesmo, antecipa as irreparáveis consequências e os danos irreversíveis que vai sofrer, e pára e retrocede? Ambos se consideram “ responsáveis “ pelos seus actos  pois assumem como sua a decisão tomada mas aqui, para além da “ responsabilidade stricto Sensu”, devemos, aqui sim, introduzir o “ sentido de responsabilidade”,  tendo em consideração a avaliação das consequências inevitáveis dos actos cometidos. E isto faz toda a diferença!

Daí eu concluir que, apelar sempre e de modo constante à “ responsabilidade” como propriedade própria e exclusiva é, para muitos outros, uma tremenda  irresponsabilidade!

Samaras, o ex-primeiro ministro Grego, também não se cansou de utilizar essa palavra tentando iludir o Povo Grego afirmando ser “ irresponsável” seguir outro caminho, porque incerto e perigoso e sendo, portanto, “responsável” manter o “ satus quo”. No entanto, para meu espanto, pois não acabo de me surpreender com esta gente, concluímos ontem o que era, realmente, o seu “ sentido de responsabilidade” : era a manutenção do seu Poder e a sua manutenção como proprietário desse Poder.  Teve mau perder e fez aquilo que eu achava inimaginável em Política que, pesem as diferenças políticas e ideológicas, eu ainda pensava que era orientada por regras básicas, como as do respeito institucional. E o que fez, para além de ter mandado um seu assessor entregar a pasta? “ Limpou” completamente o gabinete, desligou os telefones e computadores e destes nem as chaves de acesso deixou! Por fim, deixou as chaves do gabinete debaixo do tapete de entrada dando, assim, as boas vindas a quem vinha ocupar o “ seu” lugar.

A sua “ responsabilidade” era, afinal, uma total falta dela! Mas foi uma mostra de “ lealdade” perante os seus chefes, ele um simples lacaio que, tal como o de cá, só estava lá cumprindo ordens. Como faz um bom e eficaz cão do dono.

Mas este episódio é, para mim, elucidativo do que é realmente alguma Direita e TSIPRAS não vai ter tarefa fácil. Já começaram a prognosticar o seu fracasso e já começaram a tudo fazer para que isso aconteça. A Pátria não lhes interessa e o Povo também não. A sua “ responsabilidade” resume-se ao que atrás referi. Prevejo, portanto, coisas más. Já começaram por fazer baixar a bolsa quando TSIPRAS anunciou que parou a privatização do porto de Pireu. Prevejo o boicote das altas esferas e da Banca, prevejo a minagem por dentro e, quiçá mesmo, o aliciamento dos militares. Não, não estou a sonhar. Eu sei que o mundo mudou e que não será mais possível um golpe como o 1973 no Chile. Não é? Como foi no Chile de Allende e da sua Unidade Popular? Começaram por assassinar um General afecto ao Governo, mandaram as senhoras da alta sociedade ir manifestar-se para rua com panelas, continuaram com o boiote à sua principal indústria, a do Cobre, com actos de vandalismo tendentes à instalação da insegurança, até se chegar ao “ estado se sítio” propício à entrada violenta e criminosa dos generais. Com as consequências que se sabe e são históricas.

Este é, para mim, um primeiro sinal de “ guerra” pois esta  falta de educação democrática demonstrada diz o quanto eles não estavam preparados para isto e o quanto vão lutar pela manutenção dos seus privilégios e do quanto eles estão convencidos que a Democracia só funciona enquanto forem eles a mandar. Eles, mais os do “ arco”, os tais “ responsáveis”. Isto é uma visão catastrofista? Talvez seja e oxalá assim não suceda. Mas a História…

Mas, infelizmente, as populações em geral , estupidamente acreditam, nesta sua “ responsabilidade “, mas por medo, simplesmente por medo.

Até um dia, como aconteceu na Grécia!

 

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