COM AMIGOS COMO ESTES …

Penso ter lido um destes dias, e digo “penso”  porque às vezes até duvido de ter lido bem, não vá ter isso surgido de um qualquer sonho, que a Balança Comercial da Alemanha apresentou em 2014 um superavit de mais de 200 Mil Milhões de Euros. Lá está, será que li mesmo bem?

Isto quer dizer, grosso modo, que a Alemanha exportou mais 200 Mil Milhões do aquilo que importou! Produziu quanto baste para o consumo interno, importou apenas o necessário para a manufactura daquilo que exportou e vendeu o que quis vender.

Imediatamente me assaltou a inevitável pergunta, consequência lógica da profunda amizade que une os dirigentes dos dois países, amizade que se deveria traduzir em vantagens bilaterais : como foi com Portugal? Será que aumentamos as nossas exportações para a Alemanha ou, ao contrário, importamos mais ainda?

Por via das dúvidas e daquele estratosférico número fui-me informar e… compramos mais, muito mais. E fiquei desiludido : para que serve então aquela que dizem ser uma sólida e cúmplice amizade? Palpável, eficaz e frutuosa? Eu a pensar que tanta bajulação traria ao menos de volta alguma atenção tendo em consideração a nossa pungente necessidade de exportar mais para, assim, desanuviarmos essa  tradicional  dependência que  nos vai matando, mas não!

Afinal, concluí eu, falando com os meus botões, que o que se terá passado foi que a “ madrinha”, a pedidos lancinantes do seu português afilhado, apertado por tantas solicitações de Mercedes, BMW e Audis topo de gama, incluindo os da Factura da Sorte e dos seus Ministros que não aceitam outros e até aquele que ia de mota para o Ministério exigiu um A8, face a tão afunilado rateio pois não são só os Portugueses, são os Gregos, os Búlgaros, os Ucranianos, os Romenos, os Húngaros, os de Chipre e outros que tais que precisam deles como de pão para a boca,  dizia eu,  face a tão atafulhado rateio, em nome dessa abençoada amizade ela lá acedeu a…aumentar a nossa quota. A quota de Mercedes, BMW e Audis… Deve ter sido.

E assim, como grande amiga de Portugal , com dó no nosso Primeiro Ministro e como prémio pelo seu valoroso desempenho, lá aceitou “ aumentar” as suas exportações para Portugal em quase 20%, superando assim a França como nosso primeiro fornecedor. Foi o que eu li e confirmei pois eu não invento nada.

Dir-me-ão ou perguntar-me-ão: mas afinal o que é que isso tem de mal? Eu direi : nada! Mas também posso responder : tudo! Pois vejamos : de que necessita verdadeiramente Portugal? De equilibrar a sua Balança Comercial, certo? Exportar mais e importar menos, correcto? Nem é necessário explicar porquê porque sei que sabem e estão a seguir o meu raciocínio. Mas para exportarmos mais tem que haver quem compre, tenha poder de compra e seja um bom e grande marcado, não é? Então se os “ amigos”, que tantos favores nos devem, não nos compram, para que raio serve então essa amizade?

Dir-me-ão também : então eles não nos fornecem (emprestam) dinheiro? Emprestam pois. Emprestam para que lhes compremos os automóveis, os pandurs, as máquinas, as metralhadoras… e cobram os respectivos interesses pois, como não lhes falta dinheiro, até ganham duas vezes. Em vez de nos emprestarem não seria bem melhor pagarem-nos aquilo que lhes exportássemos, sendo esse acréscimo menos dívida e produto vital para a nossa recuperação? Mas eles, eles sim são verdadeiros “amigos” : emprestam-nos para que lhes compremos mas não lhes podemos pagar com o que nos compram ou deviam comprar! E , ainda em nome desta benfazeja amizade, actuando assim estamos a  dar o nosso valoroso contributo para esse enorme “ êxito” Alemão e para o desequilíbrio do Euro. Como deve ser porque a Alemanha assim quer.

Mas o que é que nós produzimos que a Alemanha nos queira comprar?  Li a resposta no Financial Times : papel higiénico preto ( o da Renova) e sapatos reais! Foi assim que eu li e esse conceituado jornal acrescenta que a Alemanha tem “ falta de apetite “  pelos produtos portugueses! “ Falta de apetite”, leram bem? Apetite esse inversamente proporcional ao que nós temos pelos seus carros que, como há tempos dizia um famoso economista que nos visitou, se eles os produzem têm que ser vendidos! Nem mais!

A Alemanha, por via do grande incremento das suas exportações para o nosso país, está, portanto, a beneficiar com o aumento do nosso consumo privado que suporta o débil crescimento da nossa economia e pouco se importa com isso. Nem com o resto da Europa. Solidariedade é palavra que para eles não existe nem é pronunciada. Querem é vender e …receber, nem que para isso os seus Bancos emprestem para, quando estiverem à rasca, serem ressarcidos com mais um resgate ao devedor  e com o que isso implica e bem sabemos.

Ora isto é insuportável, é abuso de posição dominante e causa embaraço mesmo dentro da Comunidade Europeia. A própria Comissão Europeia anunciou em 2013 a abertura de uma “ investigação aprofundada”, aprofundada repito, sobre o excedente comercial Alemão por ser um importante elemento macroeconómico desequilibrador do Euro. Também li. E Barroso, na altura, falou muito, disse muita coisa, reiterou essa profunda investigação e…limitou-se a concluir que, sic,  “ a questão era saber se a Alemanha podia fazer mais pela economia europeia”. Estão a lembrar-se? Estou a escrever e não consigo esconder o riso pois esta conclusão é mesmo definitória daquilo que ele andou lá a fazer 10 anos, bem pago e com reforma compatível : nada! E como respondeu a Alemanha? Aumentou ainda mais o seu excedente externo e Barroso foi devidamente recompensado.

Muito mais se poderia dizer acerca deste inesgotável tema, mas resta concluir com um Adágio Popular e que aqui cai como sopa no mel : “ Com amigos como estes nem sequer quero inimigos”!

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