JOAN BAEZ

Woodrow Wilson Guthrie- Woody Guthrie, tendo em consideração o tempo que teve de vida- faleceu relativamente novo com uma doença chamada Doença de Huntington, uma degenerescência progressiva do sistema nervoso, para a qual não existe cura, e à qual resistiu durante treze anos, ao fim da qual já não falava, não andava, não focava os olhos e a vontade de viver já não era o suficiente a ponto do coração ter deixado de bater ( a minha esposa sofre, como muitos sabem, de uma doença semelhante já há nove anos e o quadro é…)- tendo em consideração o tempo que viveu, dizia eu, é o mais prolífico autor de músicas que permanecem na tradição popular, de união e protesto e foi, juntamente com Pete Seeger levá-las para a vida das pessoas, para as suas lutas e serviram para as unir contra a arbitrariedade, para organizar sindicatos e para estar à frente da opressão  e da luta pelos direitos básico.

Como dizia Pete Seeger, ele tinha algo de louco, passava o tempo a contar histórias intermináveis sobre a vida e sobre as vidas, com a sua viola a tiracolo, o seu cigarro na ponta da boca, o seu chapéu à cowbow e o sorriso nos lábios. E cantava sobre “ outlaws” sobretudo numa linguagem desconcertante e simples. Mas tinham uma grandeza da qual as pessoas só mais tarde se aperceberam pois passaram a fazer parte integrante das suas vidas.  Qualquer louco pode ser complicado, dizia Seeger, mas é preciso muito génio para ter essa simplicidade.

Era um poeta do Povo e todas as suas canções, hoje eternas, como “ This lans is your land”, Union Maid”, “ If I had a hammer” e tantas, tantas outras, tornaram-se património da toda uma América, a América que quer a Paz, a Justiça, a Igualdade Social, a Liberdade e toda uma geração de cantores com ele aprendeu : Bob Dylan, Ton Paxton, Phil Ochs e…JOAN BAEZ!

JOAN BAEZ!

Ontem fui, juntamente com os meus cunhados Margarida Martins e António Covas, por gentil oferta e lembrança da minha filha, que assegurou toda a necessária logística cá em casa, ver o seu concerto no Coliseu do Porto! Recuamos 50 anos e transportamo-nos para os anos 60 e 70.

Aqui era tempo de Fascismo e Censura mas algumas notícias chegavam. De Woody quase nada e de Pete pouco. Soube apenas que, à força de um humanismo intrépido, de um pacifismo exemplar e desafiando todas as normas de segurança, tinha ido, partindo de Moscovo onde fora cantar, passar uns dias a Hanói, em plena guerra do Vietmane, e cantar para o inimigo! Guerra contra a qual tinha marchado inúmeras vezes, cantando e sempre na frente das mesmas.

Como JOAN BAEZ, que também o fez! Pete era o seu ídolo e ela seguia-o, também à frente. Contra a guerra do Vietname, pela Paz, pela igualdade e pela luta dos negros pela emancipação e direitos cívicos, com Luther King.

É dessa altura que a comecei a conhecer e já tinha, com 18 anos, participado no Festival de Newport, em 1963, um festival independente dedicado ao Folk, festival que era organizado por Pete Seeger, Alan Lomax, Oscar Brand, Ronnie Gilbert e outros e onde despontaram lendas como Bob Dylan, Judy Collins, Peter Paul and Mary e tantos outros. E vimo-la depois no Festival de Woodstock, em 1968, onde encerrou o primeiro dia cantando “ We Shall Overcome”, canção recolhida dos espirituais negros por Pete Seeger e se tornou o maior hino conhecido contra a opressão e pelo futuro quando começou a ser cantado pelos presos nas cadeias Sul Africanas no tempo do Apartheide.

Naquela época todos nós, os mais politicamente conscientes, sabíamos que se viviam tempos de mudança, tempos de procura da paz e da liberdade, os movimentos Hiippie e o Maio de 68, por exemplo, de luta pelos direitos cívicos dos negros ( as marchas de Martin Luther King e o Black Power ), a luta contra a guerra do Vietname, aqui a luta contra a guerra nas ex colónis etc. etc… e a grande manifestação de 15 de Abril  1967 sobre Washington foi prova disso mesmo e onde ela pontificou na sua frente.

Esteve sempre na frente das lutas, das lutas certas e era e ainda é uma reconhecida pacifista. Tornou-se para todos nós um “ ícone”. Para mim especialmente.

Fui ontem reviver esses 50 anos. Independentemente das músicas tocadas e cantadas, pois uma hoda e meia para pouco dá, fui para lhe prestar o meu tributo, o meu reconhecimento a esta Senhora que faz parte da minha vida. Agora com 74 anos, mais quinze que eu, mas activa, não já com aquela voz límpida e cristalina de soprano que nos encantava e transformava qualquer música em coisa ainda mais bela, mas ainda com apreciável qualidade, algumas vezes a fazer lembrar mesmo a voz antiga e com o mesmo dom de grande tocadora de viola . A fazer mesmo esquecer qualquer outro acompanhamento tão formidável era a quantidade de sons que dela tirava. Esbelta e magra com a sua madeixa branca, o seu cachecol comprido e uma postura de dignidade intemporal. Joan Baez!

E cantou, e eu com ela, JOE HILL, o lendário tema descrito por Alfred Heys que fala do talvez mais famoso sindicalista e organizador do início do século XX na América e que foi condenado à morte e fuzilado por crime que não cometeu. Diz o primeiro verso : “Sonhei que vi/ Joe Hill na noite passada/ Tão vivo como eu e tu/ Disse eu: mas Joe já morreste há dez anos!/ Eu nunca morri, disse ele/ Eu nunca morri, disse ele!).

Também a Balada de “ Sacco e Vanzetti” e cantamos a GRÃNDOLA!  A plenos pulmões e com o nosso sapateado cantamos a GRÃNDOLA! E emocionamo-nos quando todos cantamos o “ GRACIAS A LA VIDA” , da Violeta Parra. E cantamos a paz com o “ IMAGINE” do John Lennon. Recordamos a “ SUZANNE” do Leonard Cohen e eu cantei-a toda porque a sei bem : com ela embalava a minha Susana em pequenina ( Suzanne takes you down, to a place near the river, we can see the boats go by…) e também o “ BLOWING IN THE WIND” do Bob Dylan. Passamos de relance toda uma vida, uma vida de cinquenta anos. De tributo, de lembranças e de emoção porque são ocasiões únicas, ocasiões de celebração.

E acabamos, não em apoteose mas em introspecção com a carismática canção de Pete Seeger “ WHERE HAVE ALL THE FLOWERS GONE”. Para lhe prestar também tributo, com certeza, ao seu “ pai” e orientador também mas, acima de tudo, para que meditemos e, caramba, depois disto tudo, depois de cinquenta anos, depois de tanto avanço, do quanto tudo é relativo, nos perguntemos : “ WHEN WILL THEY EVER LEARN?”.

Quando aprenderemos? Quando haveremos de aprender? Quando aprenderão?

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