ANTÓNIO MARTINS

Nota Prévia : Este é um texto de índole meramente familiar e elaborado para uma ocasião específica. É aqui publicado para poder chegar a toda a Família e dentro dela em particular àqueles que não puderam estar presentes. Porque mo foi solicitado o escrevi e, apesar de ter sido eu a escrevê-lo, considero-o património de toda a Família, Família essa que hoje celebrou e tão dignamente recordou o seu saudoso Patriarca : ANTÓNIO MARTINS.

 

MARTINS há muitos. Antónios Martins provavelmente também os haverá. Mas ANTÓNIO  MARTINS, nascido em Barra Mansa- Brasil nos idos de 16 Abril de 1915 e desde pequeno residente em Paredes de Coura, só há um. Este que agora faria 100 anos se vivo fosse. É precisamente essa efeméride que aqui estamos a recordar e a celebrar, numa louvável ideia da Margarida a que eu de imediato me associei.

Porque uma Família deve a sua permanente união precisamente à lembrança e à recordação, pois é isso que traz a continuidade, a agregação e a comunhão de sentimentos e de histórias são imprescindíveis ao respeito por um nome e à sua perpetuação. EDUARDO GALEANO o escritor Uruguaio recentemente falecido dizia, com toda a sua sabedoria, que “ o mundo está feito de histórias e são as histórias que nós contamos, que transmitimos, que replicamos e que multiplicamos, são essas histórias que permitem que transformemos o passado em presente e o distante em próximo…”.

É isso que estamos a fazer e por isso cá estamos hoje. E quando tudo concorre para um facto como este que reunidos estamos a celebrar e aceitamos reconhecidamente o que tal significa é porque reconhecemos haver traços indeléveis de afirmação diferenciadora na pessoa que hoje lembramos. Sem qualquer dúvida.

Logo, ao recordarmos o Patriarca desta Família, o saudoso António Martins, não podemos deixar de pensar na idiossincrasia familiar que ele promoveu e o que o José Leandro Xavier Gonçalves, o primeiro intruso a conseguir entrar na sua amurada, em devido tempo bem definiu: a MARTINGANÇA! Certamente inspirado naquela terra que eramos obrigados a passar quando íamos para o Sul ou para o Sul do Sul. Foi uma feliz definição pois ela consegue simplificar em si só todas as virtualidades que tal  nome inspira. Tem, portanto, essa idiossincrasia muito de salutar e bom como terá também algo de menos recomendável. O bom é que o ANTÓNIO MARTINS gerou filhas pra caraças e houve uma série de “ bobos” que as vieram desencantar, mas com vidas e hábitos de vida bem distantes daqueles que na casa Martins eram costumes e que eles  vieram transformar, modificar, alterar e diria até revolucionar no seu “ modus vivendi”. Lá está outro aspecto bom e salutar, sem dúvida. Mas se pensam que no início, ao contrário do que possa parecer, elas se deixaram ir na onda e se tornaram de imediato liberais ou coisas mais, estão bem enganados pois o Martins era implacável e o medo delas atingia a dimensão do surreal.

Ele era rígido e patrocinador. Namoro só consentido. Continuação do mesmo só com acompanhamento. A confiança tinha que ser conquistada e a cartinha a pedir para passar a amurada tinha que ser lavrada. Casamento estava instituído que só com algumas regras. Martingança, claro! Rédea curta muito curta. Aceite e aceitada? Que remédio!

Aspectos menos bons? Até pode haver, mas hoje não são para aqui chamados. Por alguma razão todos continuamos casados e devotamente amantes das nossas mulheres. MARTINS de seu nome e cujo nome aceitamos perpetuar. Porquê? Porque são todas grandes mulheres. São mandonas? São, mas só manda quem manda bem. Que fazer, não é? São Martins…

Mas quando esta espécie de “ ralé” tomou de assalto a Martingança, ou as Martinzinhas como em Coura as apelidavam, para ódio e inveja de muitos ilustres Courenses, algo se modificou porque no “ harém” foram introduzidos machos e eles não eram eunucos: falavam e falavam pra caraças! Discutiam, iam às do fim, exaltavam-se, insultavam-se uns aos outros, de burros para cima e elas… elas lá estavam todas enroladas em volta daquela malfadada braseira, redonda e tão redonda como a roda que elas à sua volta faziam… E entretanto o MARTINS trabalhava, trabalhava e trabalhava, naquela sua Loja onde tudo se vendia : a mercearia e a drogaria. A massa fina e a aletria misturadas  com a traça e a linhaça.  O bacalhau com o vidro, o café e o colorau com o ácido sulfúrico e este bem perto da pólvora. Um paiol de explosão latente e eminente que foi sempre adiada. Como por cima o soalho ao peso de tanta gente.

Que lá ia passar todos os fins de semana. Era adquirido. A casa era pequena para tanta gente e tomar banho era um martírio pois casa de banho só havia uma e, religiosamente, ela era ocupada durante boa parte da manhã pelo MARTINS que, valha a verdade, também só lá ia uma  vez por dia. Mas a gente sempre ia. E ele trabalhava, trabalhava e trabalhava…lá no seu paiol rodeado de especiarias que ele vendia como ninguém.

Dormir era um desassossego. Como pôr a dormir tanta gente mesmo sendo a casa bem grande? Repartindo, ajustando e inventando. Mas todos gostávamos de lá ir. Era sagrado. Esperávamos pacientemente que o Martins subisse para almoçar ou jantar. Só se começava a comer quando ele subia e, por isso, ao sábado era uma alegria : Ele não subia. Depois desatinávamos, descontrolávamo-nos, alterávamos as vozes e íamos às do fim. Enquanto o Martins trabalhava, trabalhava e trabalhava… Mas Coura toda já sabia e nem ligava : eram os genros do Martins. Tornou-se um hábito. E diziam : eles discutem, falam alto mas dão-se bem! E o Martins trabalhava, trabalhava e trabalhava… na sua mercearia que também era drogaria e onde conviviam em sã união a soda cáustica e o sabão, o açucar e o remédio dos ratos e os ratos, eles mesmos. No paiol pronto a explodir mas que nunca nenhum fiscal fechou!

Com o Martins não se discutia, isso era impossível. Ele dizia que o tampo branco da mesa era preto de modo que, depois de tanta argumentação e raiva a cheirar a loucura, lá dizíamos que sim, que não era bem preto mas parecia pois, analisando a coisa filosoficamente como o branco é a luz e o preto a ausência da luz, na ausência de luz seria preto. E tinha que ser preto. Ele era assim, mas trabalhava, trabalhava e trabalhava. E fez muitas filhas, todas diferentes mas todas iguais. Para elas o tampo também era preto. Mas o Martins era bondoso e era gentil educado e transmitia para todos uma quase que obrigação : sermos também educados, bondosos e gentis como ele. Eramos da Família Martins, que diabo! Da Família do António Martins e isso era um traço distintivo e respeitado.

Mas voltando à MARTINGANÇA, acho que repararam que não falei ainda do menos bom…. Mas haveria ou haverá algo menos bom? Ora respondam lá meninas Martinzinhas, para nós Martingança, ora respondam : Vocês acham que nós achamos que vocês têm algum defeito? Acham? Agora digam lá vocês, eu incluído, maridos das meninas Martins : Vocês acham que elas acham que nós achamos que elas têm algum defeito? Isso é que era doce… por isso é que continuamos todos casados, e bem casados, graças a Deus. E tudo isso por causa do Martins que as soube temperar. E por isso estamos aqui todos reunidos, muito diferentes mas irmanados do mesmo sentido da vida : a União Familiar. Por isso nos sentimos agregados na Amizade que a todos  nos une e une todos os descendentes. Que também se mantêm firmes nas suas Amizades, nos seus amores, nas suas crenças e nesse sentido único que é o da Felicidade. Mas tudo  tem uma definição e um  nome : MARTINS!

Honrar este nome, honrar a sua vida e o seu legado é honrar a tradição e fazer dela o traço apaziguador que faz da lembrança memória. E carregando este nome com ele fazer História. Uma coisa boa, uma coisa que nos anima e nos faz melhores.

Eu tenho orgulho em ser genro do António Martins e pertencer a esta Família e sinto que todos tivemos sorte em cá ter vindo parar. Mas, na verdade, também ela ficou mais rica com a entrada dos Gonçalves, dos Vassalos, dos Menezes, dos Valentes, dos Covas e dos Silvas.

Por isso cá estamos, para honrar o responsável dessa coisa boa : ANTÓNIO MARTINS!

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