DE VOLTA ÀS CARTAS….e a moral flexível.

Não a Política, no sentido estrito do termo, mas as minudências e pequenos episódios que diariamente ocupam as páginas dos jornais, os espaços de comentação e as redes socias, já pouco me dizem, em sentido contrario ao que antes fiz quando em múltiplos comentários e textos sobre eles dissertei. Para quê, perguntava-me eu? Para muito pouco concluo agora.

Agora eu tendo a ficar muito mais selectivo e só escrevo sobre aquilo que, para mim, tem verdadeiro significado ou então sobre o que pretendendo ser sério não passa de pequeno arremedo do absurdo.

Assim sendo eu escrevi e publiquei recentemente dois textos, que ninguém deve ter lido mas isso já não me importa, sobre a apresentação do estudo Macroeconómico encomendado pelo PS a uma dúzia de Economistas de reconhecido mérito, em que realçava o sobressalto por ele provocado e o desdém que adveio das hostes dos Partidos do Governo por ele ser um documento rigoroso e verdadeiramente alternativo. Que eles tentaram minimizar mesmo antes de o ter lido ou apreciado.

Disse neles palavras de concordância quanto à forma, quanto aos objectivos, quanto à ruptura teórica com o que vem sendo seguido, por ser, como disse, um documento que propõe uma alternativa política com a política económica vigente e só não lhe dei a minha total concordância e certeza do meu futuro apoio porquanto ele apresenta visões sobre a TSU e pressupostos da sua utilização como arma de gestão económica que eu não aceito nem subscrevo de modo algum.

Considerando este um facto deveras relevante, e não é despicienda a aceitação do seu rigor como se confirma com a viragem dos “ media” para a sua discissão, desde economistas em geral ( menos dos apaniguados deste poder dos quais ainda não vi qualquer apreciação, o que é sintomático) aos comentadores de serviço, ele mostra à saciedade o completo arrepio que tal causou nas hostes governamentais incapazes de admitir qualquer alternativa por cientes de não haver outro caminho. Não alvitravam de todo que tal pudesse vir a suceder e ainda por cima de modo tão minucioso e cuidado que os deixou sem acção.

Foi um pequeno terramoto, que assolou as mentes já convencidas da plena implementação em todos os espíritos da teoria da “ inevitabilidade” e da impossibilidade de algo diferente vir a ser discutido e aceite, quer pelas organizações de análise quer pelas europeias e mundiais que tudo controlam, que tanto os atormentou ao ponto de perderem completamente o tino.

E foi até engraçado ver na Assembleia da República o PSD e o CDS, sem algo para dizer, lançarem umas graçolas e o inoperante Ferro Rodrigues ter tido a sua oportunidade de fazer um pequeno brilharete respondendo : “ Falem, falem, digam mais, que quanto mais disserem mais o PS agradece…”. O Portas, que só diz graçolas, ficou com um sorriso amarelo e eu pensei : caramba, como tudo de repente pode mudar…

E a verdade é que o PSD ficou em estado de choque e, na ausência de qualquer contraditório por parte de economistas tidos como da sua área, passou a dizer inanidades, coisas sem nexo, a alvitrar sem ler e, num golpe de mágica, encerrou abruptamente as negociações para a continuação da coligação, antes mesmo de do essencial tratarem : dos lugares. Era importante dar uma de união e de forçar o casamento, em suma. Eu, já antigo nestas coisas, logo pensei : estes tipos do PSD vão-se arrepender amargamente. Vão, vão. Eles esqueceram-se de que há coisas que só de quatro em quatro anos se avaliam. O comportamento do Portas em 2013, por exemplo. Pensam que as pessoas se esqueceram e perdoam a falta de carácter? Mas disto falarei mais à frente.

E zás…perante tanto desnorte apareceu o “ bom senso” do Marcantónio que disse: e porque não a gente mandar-lhes uma carta a pedir explicações ( as que os seus economistas ainda não conseguiram dar), a exigir confrontação com todas as metas negociadas e tal ? E lá foi a carta…

Se o ridículo matasse estes personagens já não estavam no activo e o PS, esfusiante por tamanha estupidez, logo disse : claro que responderemos! Nenhuma carta fica sem resposta!

Claro que na carta de resposta lhes vai mandar ler o documento, vai mandar estudá-lo, compará-lo, vai-lhes dizer que tanta minúcia nem no Orçamento de Estado, vai-lhes dizer que lá está tudo projectado e tudo avaliado e vai-lhes mandar mais um quadritos, mais alguns algoritmos, mais umas tabelas comparativas e, já agora, um resumo dos seus quatro anos… e vai ser lindo.

Podem discordar? Podem claro, do mesmo modo que eu também discordo de alguns pressupostos, como o da TSU por exemplo. Mas…pedir explicações? Exigir o “ visto prévio” da UTAO e sei lá o quê? Dá vontade de rir e de chorar. E quem é o promotor- polícia, o “ gajo” do lápis, o agente, quem é? O Marcantónio, esse celebrado economista ( que não é, dizem…), esse conceituado gestor ( que não é, dizem, que nem pensar…), esse político acabado ( que sim, dizem que pode estar…), o tal que exigiu que antes que seja programa seja submetido à análise prévia da UTAO, da NATO, da CEE, do FMI, do Bano Mundial, de Harvard, de Princetown e daquela plêiade de analistas e assessores do Cavaco…Fantástico, não acham?

Tirou da cartola um coelho morto, coitado e coitado do Coelho também que de tão bem rodeado começou a glorificar o Dias Loureiro. Esse sim um grande gestor de méritos confirmados e de ascensão e vida exemplares. Na sequência de Relvas e Marcantónio de quem mais o Coelho haveria de se lembrar? Obra prima de sagacidade esta.

Eu rio-me e apenas me rio porque já começa a ser difícil o riso. Mas uma coisa tem piada : voltaram as cartas! As já longínquas e desusadas cartas. Aquelas que eu e todos os da minha idade tanto escrevíamos. Às namoradas mandando folhas e folhas, tratados de amor eterno e saudade infinitas, ensaios sobre o Amor. Amas-me? A resposta vinha depois, escrita e com um coração e juras de amor eterno. Coisas bonitas que a evolução definhou. Vieram os Faxes, os SMS, os Mails etc…tudo muito impessoal pois nada disto tem a gravidade e a confidencialidade que uma carta tinha ( a não ser que fosse aberta ou violada). E o Marcantónio agora, num lampejo futurista, desenterrou esse velho instrumento!

Porque não me amas, pergunta ele? Como tanto me podes desdenhar, volta ele a perguntar? Porque acreditas tu tanto neles, que diabo, desabafa? Exijo respostas na volta do correio, senão…ele ameaça. E o Costa lá lhe respondeu, de peito feito, claro que vai ter resposta porque uma carta tem sempre resposta. As velhas cartas…sempre tinham resposta. Bonito Marcantónio, bonito. Gostei! Mas o Coelho nem fala. Para ele a questão é saber se a carta é verdadeira ou falsa e está preocupado no quanto lhe poderá custar essa carta porque se se precipitar e a estratégia do Marcantónio não ajudar como irá “ levar a carta a Garcia”? Por isso é que ele, antevendo já mais uma desilusão, já está a aliciar o Dias Loureiro para ele deixar a sua zona de conforto (!) e vir ocupar o lugar do desprestigiado Marcantónio….Será?

Mas outras cartas se seguirão porque, tendo uma carta sempre uma resposta e este é um princípio básico, haverá sempre uma resposta, uma outra a pedir esclarecimentos à resposta, outra a dar os ditos, outra a introduzir dúvidas, outra a tentar dissipa-las e assim sucessivamente, para grande gáudio dos Correios ou dos pombos correios, do Rato para a Lapa, da Lapa para o Rato, Rato Lapa, Lata Rato, Rato Lapa…por acaso até nem é muito longe de modo que até pode ser levada em mão mas com cópia para ser autenticada a recepção. A resposta está pronta, podem vir busca-la, dirão. Cartas…que terão que ser bem guardadas e têm que estar lá todas, arquivadas em maços com uma fita à volta como nós fazíamos, porque elas vão ser necessárias. Pensem  nos debates, por exemplo. Elas vão ter que ser bem analisadas, anotadas, esmiuçadas, isolados as frases mais vibrantes, tudo, tudo muito bem preparado. E está ali tudo condensado, já viram? Benditas cartas…

PS– Eu disse que ia abordar e abordo. Que ia falar e falo. De quem? Dessa personagem tão cândida e inocente, tão crente e indulgente, tão patrocinadora e persistente, tão solícita e obediente, mas tão básica e incompetente : a Ministra Cristas, a que proferiu há dias essa gloriosa frase : “ Paulo Portas teve a flexibilidade de voltar com a palavra atrás”. Vejam só o alcance e subtileza desta frase. Uma frase que eu diria só comparável àquela de Camões: “ Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta”. Como que a dizer : acaba-se tudo o que era tido por Moral e Ética que outro conceito agora se levanta, o da flexibilidade! O da Ética mais ou menos, o da Moral assim assim, o da palavra dita mas desdita, a flexibilidade, enfim. Agora é mais “ versatilidade”, é “ jogo de cintura”. Ser “ sem vergonha” ou “ vergonhice”? Isso já era. Agora é “ flexibilidade”, é dar o dito por não dito, é fazer e arrepender, é andar e retroceder, é dar e ir buscar, é falar e não ter falado, é dizer e não ter dito, é prometer e desprometer, é ir de vez e regressar e é ser-se pulha sem se saber. É ser cretino e esquecer, é ser tolo e não doer, é opinar sem se saber, é julgar-se sem se ver, é ser crápula sem perceber, é fazer do mal o normal, é não ter espinha dorsal…

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