“MAIS VALE UM MAU ACORDO QUE UMA BOA DEMANDA”

Já há quase 15 dias que aqui nada escrevo e isso tem a ver com o Ramadão, mas ao contrário, em que estive, não isolado do mundo mas da sua componente mediática, diga-se Televisão, e onde a actualidade apenas era mitigada pela parcimoniosa bondade do meu Iphone, mas apenas quando ele queria.

Mas falei do Ramadão porque no sítio onde isolado estava, não no sentido estrito do termo porque estava acompanhado de muitos familiares mas simplesmente porque não ancorado em quem eu queria, tive contacto com ele porque o já célebre Marroquino Joaquim, em pleno Ramadão, carregando às costas o seu saco pejado de Polos e TShirts e nos braços as túnicas, vestidos, lenços e toalhas de verão, anunciando o seu negócio “ onlaine”, o seu “ shopping onlaine” e a sua Zara “portátel”, seguia o seu caminho, com a sua graça estonteante e a sua postura de mercador de confiança, como ele sempre dizia. Ele, sim, estava em pleno Ramadão, mas este a sério. O meu era ao contrário : não começava de manhã, como o dele, mas tinha o seu epílogo quando o dele acabava: num familiar jantar de degustação das preciosidades gastronómicas da zona. Como eu admiro o Joaquim e o seu negócio “ onlaine”…

Mas fui-me apercebendo de que o marasmo continuava, que a Europa seguia o seu confrangedor caminho em direcção à desintegração, que se estava instalando uma ideia de pré-guerra, uma ideia de implementação de um IV Reich, da institucionalização de um poder hegemónico da Alemanha e seus fiéis aliados, um “ deja-vu” tenebroso e tudo a pretexto de um governo de um País pertencente à mesma estrutura que ousou contrariar as regras elegendo um Partido inconveniente e pessoas que, num País endividado até ao pescoço, apresentavam pensamentos diferentes, soluções diferentes, e pontos de vista que eles sabiam estarem certos mas que nunca por nunca podiam ser levados em consideração. Nem lá nem em lado algum…

Como tal deveriam ser punidos por essa ousadia pois, como dizia alguém aqui internamente, manda quem tem dinheiro e obedece quem precisa e quem precisa não pode dar opinião e se algo souber deve calar. E assim é e assim foi: lá se chegou a um acordo! Um acordo onde o nosso “piccolo” chanceler, acompanhado da nossa efusiva loira chancelarina, afirmaram terem tido um essencial papel dando a brilhante ideia daquele fundo constituído por património Grego que serviria de colateral aos apoios financeiros urgentes e inadiáveis à Grécia e sem os quais o “ Grexit” seria inapelável e o futuro de todos uma nebulosa. Brilhante este nosso “chanceler”. Contralto de Ópera bufa…

Mas voltando ao título do texto : “ Mais vale um mau acordo que uma boa demanda! Este é um provérbio muito utilizado no meio Judicial e que retrata a realidade que se vive quando os dois lados de uma contenda reclamam a mesma coisa, a sua razão, e, na perspectiva de perderem tudo, acedem a um acordo parcial que lave a face de ambas as partes. A demanda era em princípi justa, mas as circunstâncias aconselhavam a optar pelo melhor dos males…

Foi o que Aconteu com este acordo. Aqui também se costuma dizer que “ mais vale um pássaro na mão que dois a fugir” e vai dar quase ao mesmo. Mas parece que, ao fim de tantas horas, o nosso “chanceler” acordou e sentiu necessidade de mandar o seu palpite. Que ele diz que desbloqueou ou, mais singelamente, ajudou a desbloquear! Mas a verdade é que deve ter sido realmente acordado do seu sonambulismo e da sua postura de rico representando um País pobre quando  viu à sua volta acordarem a França, a Itália e até a Espanha para o perigo que representava a saída da Grécia da zona euro. O famoso Grexit! Mas eles, a França, a Itália e a Espanha representam nada mais nada menos que a 2ª, 3ª e quartas economias da zona euro. E acordaram a tempo de acordarem o  nosso “piccolo” chanceler para a constatação que, tal como a dívida da Grécia, também as portuguesas, italianas, francesas e espanholas são impagáveis e derivam da má construção do euro e das assimetrias que fazem com que os choques sejam mais sentidos nestes países. E concluem, finalmente, que quem ganhou foi quem tinha uma moeda forte : a Alemanha! E eles que pensavam que os mercados depressa absorveriam os problemas da saída da Grécia concluíram, finalmente, que não seria bem assim e era, portanto, urgente um acordo. E encostaram a Grécia à parede. E ela, exangue e sem recursos, em lastimável decadência e ferida na asa, lá assinou. A demanda era justa, alicerçada em valores democráticos e inquestionável boa fé, mas assinou um mau acordo.

Mau? O possível, para ganhar tempo, para respirar, para se habituar a um novo ritmo de vida, a um novo estilo de viver, para fazer contas internas, para chamar à responsabilidade todos aqueles que nunca a tiveram e se dedicaram anos e anos e delapidar a riqueza pública, a cobrar impostos a quem nunca os pagou, a organizar um Estado que nunca existiu e era propriedade de apenas alguns, para integrar a Igreja e as Forças Armadas na responsabilidade colectiva, para chamar à razão os Lobis e todas as corporações, para erigirem uma máquina fiscal que possa contestar a corrupção e a fuga institucionalizada ao fisco, para eliminar privilégios mesquinhos e até anedóticos, para, enfim, erguer um Estado digno desse nome. Mau? Simplesmente o possível.

Era, portanto, urgente o acordo. E Grécia só terá futuro com este Governo ou com um Governo como este. Formado por pessoas que nada devem à sociedade, que não foram usufrutuários da delapidação de recursos públicos que conduziram o seu País a este estado, por pessoas que estão livres desses enormes e criminosos interesses corporativos que os atrofiaram de dívidas, por pessoas com pensamento e ideologia social que certamente tudo farão para reerguer a dignidade do seu Povo.

Estes meses não foram em vão e permitiram um abanar de consciências e um cair na realidade que não era expectável. Agora já se questiona muita coisa que antes não se questionava. Agora já se tornam nítidos os blocos de interesses e, como há pouco ouvi de alguém, também se evitou o avolumar das fissuras entre alguns países, como a Alemanha e França por exemplo. Também se constata que nos países nórdicos o Estado Social está em risco com a emanação no poder de partidos de direita afectos à Alemanha, também se torna nítido o isolamento dos países do sul e se constata que a “ União” Europeia é já um mito.

Permitiram que se acabasse com o fingimento e se tornassem claras as posições de domínio. Que se caísse na real e se tenha sentido o alarme que provocaria a saída de um país do euro. E que chamasse finalmente à colação o problema das dívidas soberanas, um problema surgido a partir da crise de 2007 nos EUA e nunca resolvido.

Permitiram também estes meses que se tenha clarificado a nossa opinião acerca dos líderes que nos regem, da sua cobardia e falta de escrúpulos, da sua insensibilidade e egoísmo, da sua falta de carácter, da sua pusilanimidade e da sua falta de espinha. Permitiram-nos concluir que há outras pessoas, pessoas bem preparadas e que lhes fizeram frente, como Varoufakis por exemplo, que não acenaram com a cabeça e mesmo sendo parcialmente derrotados, qual David contra Golias, não deixaram de mostrar à evidência que o “ rei vai nu”…

E volto ao Marroquino Joaquim e á sua “ Zara onlaine”. E também ao seu Ramadão. É para cumprir? Então cumpre-se. A vida continua e o Povo Grego saberá governar-se. A Europa? Já não tenho tanta certeza…

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