O FUTURO DO PASSADO

O título que dou a este texto pode parecer assim um pouco abstruso mas, tentando enquadrar em duas palavritas aquilo que a seguir vou explanar, foi o melhor que encontrei.

Na verdade, perante tudo aquilo a que estamos a assistir, nomeadamente com a proclamação das tais ideias mestras do programa da coligação que está no poder, parece-me adequado dado que, se por um lado a sua bateria argumentativa se restringe apenas ao passado, mas deturpado, a sua declaração programática reporta-nos para um futuro mirífico que nada tem a ver com o presente. Presente esse, e passado recente, que se ignoram como se não existissem ou tivessem existido. São para eles o sacrossanto remédio que nos limpou da lepra e revigorou as nossas mentes para o acreditar num futuro de hossanas e desse passado presente faz mal lembrar.

Dito isto eu, como sempre até hoje fiz, conto ir votar. Nunca me abstive em eleição alguma e, salvo em algumas presidenciais, nunca votei em quem ganhou! Erro meu? Azar? Não sei, o que sei é que sou um “ big looser”, perco sempre! Mesmo quando na única vez em que alterei o meu tradicional voto, esperando uma mudança, eu perdi. Assim sendo é bem possível que desta vez perca também. Porquê? Tentarei dar uns sinais neste texto.

Começando pelo PS ele já apresentou o seu programa eleitoral e, devo dizê-lo, fê-lo de um modo sério, como aqui em devido tempo escrevi, e deu sinais de querer enterrar de vez a constante ressurreição da memória do PEC IV. Fê-lo de um modo sério porque apresentou um plano económico alternativo à política austeritária que vem sendo seguida, instigada pelos chamados credores e todas as instâncias de poder internacionais e completamente aceite e tomada corpo por este governo, que agora diz não assumir mas que sabemos logo voltará a assumir se de novo governo for. Estudou a fundo e minuciosamente um determinado quadro macroeconómico e, a partir daí, desenvolveu os cenários políticos e económicos daí decorrentes, mas baseando-se num quadro de doutrina económica e social completamente oposto ao vigente. Voltando a uma política económica que poderíamos dizer de Keynesiana por ter por fulcro o impulso da procura interna por via da melhoria dos rendimentos das pessoas como alavanca da economia, para a sua retoma e para a prossecução das receitas necessárias ao seu equilíbrio, tendo em conta tudo aquilo que do lado da despesa é exigível e não revogável e, igualmente, o custo da manutenção de um Estado Social satisfatório e consentâneo com a realidade e vontade políticas e que, mesmo já mitigado, dê algum conforto e protecção aos cidadãos.

Apresentado assim o plano, não como o usual chorrilho de promessas mas com cenários perfeitamente estudados e tipificados, de um modo assaz surpreendente até pela sua novidade, ele captou o interesse crítico pela sua insuspeita credibilidade. E tal novidade quase com ausência contraditória deixou os partidos do governo em estado de “ paradoxo” e sem saber o que fazer. Depois lá proclamaram que a sua exequibilidade tinha que ser atestada pela UTAO etc etc, num exercício político deveras delirante e depois lá mandaram a tal carta com as tais 29 perguntas e, dando-se conta do ridículo a que se entregaram, não chegaram a responder às respostas dadas nem tão pouco as comentaram.

Digamos que até aí esteve bem António Costa e o seu PS pois apresentaram algo consistente e credível, que não deverá ferir as tais instâncias internacionais e os credores oficiais pois dos assuntos “tabu” não se pronuncia, e criaram uma visível dificuldade argumentativa à coligação entretanto crida.

O PS granjeou, portanto, com tudo isso, alguns fortes argumentos para cativar o meu voto. Não o nego tendo em vista a necessidade de desamparar a loja destes tipos nem que seja por um mal menor. E, se votasse no Distrito de Viana do Castelo, o meu problema estaria mais que resolvido pois o meu voto iria inteiro e inequívoco para o TIAGO BRANDÃO RODRIGUES, cabeça de lista do PS pelo mesmo Distrito, um renomado Cientista nascido em Paredes de Coura, terra da minha esposa e minha segunda terra, companheiro de escola do meu filho, e de cuja família sou há longos anos amigo. E, se isso não bastasse, o TIAGO é mesmo bom e uma lufada de ar fresco que Costa muito astutamente conseguiu captar. Mas vivo na Póvoa de Varzim e voto no Distrito do Porto e tenho também aqui um problema de Amizade:  Somos, eu e toda a Família, amigos há longos anos do JORGE MACHADO cabeça de lista da CDU, um excelente deputado diga-se também, e sempre fomos próximos da sua área política. Que fazer? Veremos… ainda há algumas arestas por limar…

Perante tudo isto e do reiterar deste quadro como sustentáculo argumentativo que fez a coligação entretanto formada pelos partidos do governo? Desatou a prometer. Eles que se  estavam a “lixar” para as eleições esqueceram tudo e começaram até a oferecer “ garantias”. Mas só se : se puderem ou houver condições para! Tendo em conta o que representa uma “ garantia”, que não é uma simples e formal carta de conforto e só se exige uma garantia a quem não se confia, digamos que descobriram o “ Ovo de Colombo”: o “ garantimos” se pudermos! Assim como quem diz : Filho(a), garanto-te que te dou um carro novinho em folha, mas se…se me sair o euromilhões! Está garantido!

O seu programa é anedótico e causa até surpresa a muitos das suas hostes. Chega ao ponto de afirmar quererem colocar Portugal no top dez das economias mais empreendedoras e apetecidas do mundo! Eles que em quatro anos nem um só investimento estrangeiro conseguiram e nenhum promoveram! É anedótico mas não faz rir porque no meio deste delírio todo ele apresenta desígnios perigosos : o de promover a privatização da Segurança Social; o de indiciar a privatização da CGD; o de reduzir o Estado ao mínimo possível entregando quase tudo aos privados; a começar pela Saúde, continuando na Educação e fazendo deste País um País onde só os ricos terão acesso a esses pilares dos Direitos comuns e universais.

Por tudo isso, e porque como já afirmei num anterior texto, não me dou ao trabalho de os ouvir porque o pouco que ouço e leio me basta e sei do perigo que representam. Basta olhar para a sua lista de candidatos. E o que vemos e pressentimos? Um regresso ao passado longínquo e uma abstracção do presente. Um regresso à União Nacional através da captação daquela senhora cujo nome me escuso de dizer na lista por Lisboa e que representa o que de mais reaccionário e ultramontano existe na sociedade e que faz até com que eleitores sociais-democratas mudem o seu local de voto para não terem que votar em tal senhora. E na Guarda? Aquele tal do perigo que o “síndrome grisalho” representa para a Nação e que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é o mesmo que casamento entre irmãos? Que raio significa isto? Como se admite ou autoriza? O que é que isto quer dizer? Quem o permite? Em nome de quê? Só falta aquele professor de Economia do Porto que acha que a solução para a crise dos emigrantes norte africanos é dizimá-los a todos… devem ter-se esquecido, só pode! Assim um “ Tea Party” em todo o seu esplendor! Podem ser levados a sério?

Mas, embora o referido não seja pormenor, o seu proto -programa é o que é porque, tirando aquilo que destaquei como perigoso, ter lá aquilo ou outra coisa era igual porque não vai ser esse o seu argumentário durante a campanha nem será sua estratégia a defesa improfícua dessas teses mas sim aquilo que já há muito vêm fazendo e é bem visível em todos os frente a frente a que assistimos na TV e que repetem e vão repetir até à exaustão : “Foi o governo do PS que nos levou ao limiar da banca rota e nós, com a nossa credibilidade, evitamos a derrocada e salvamos o País. Vivemos três longos anos sob tutela exterior e resgatamos a nossa soberania com uma saída limpa. Não podemos correr o risco de voltarem esses que nos levaram quase à falência, esses despesistas que fizeram o País perder o seu crédito e tornaram o seu endividamento insustentável. Nós, sim, somos previsíveis  e não entramos em aventuras…”. É mais ou menos isto. Eficaz sem dúvida como a “mentira” do Aleixo : “ Prá mentira ser perfeita/ e atingir profundidade/ tem que levar à mistura/ sempre um pouco de verdade”.

Vai ser isto e só isto. Eles estão-se a borrifar para a verdade, para a verdade verdadeira e para a verdade histórica ( já ninguém se lembra nem se quer lembrar) e, repetindo isto até à exaustão, sem defesa nem contraditório eficaz e definitivo, isto tende a tornar-se verdade e, como se diz agora, viral.

E, para surpresa minha, não vejo António Costa nem o PS rebater com firmeza esta tese. Nem, quanto muito, argumentar que o passado é passado e já foi julgado nas urnas em 2011. Ou dizer firmemente que o que está em causa são estes últimos quatro anos de governação, com dados lapidares e inequívocos que não são difíceis de apresentar, e não um governo já passado e já rejeitado pelos eleitores. Mas porquê? É, como disse, algo que me deixa surpreso, a não ser que queiram mesmo escondido o fantasma de Sócrates e temam que o seu nome ressurja e venha atrapalhar a sua estratégia. Ou será que o PS vai rebater com as já antigas, permanentes e reiteradas mentiras de Passos Coelho? Não sei mas sei que é perigoso.

António Costa lá terá a sua estratégia e eu estou aqui para ver. E, mesmo que não vote nele ou melhor no seu Partido porque nele, de facto, nunca votarei, eu desejo-lhe sorte mas sempre digo que tentaria desmontar aquele argumentário e não seria difícil fazê-lo.

Mas não é no que até agora apresentei que se manifesta, não direi a minha discordância casual, mas a minha discordância formal, porquanto não me esqueço que o PS e toda a sua estrutura global, principalmente a Europeia, são co-responsáveis pela derrocada da Europa, quer através de tratados assinados quer de algumas conivências aquiescidas, que conduziram povos à miséria e à suas independências umas farsas. Vejamos o caso Grego que, se houvesse força e vontade por parte dos Socialistas Europeus para uma oposição firme, teria tudo para ser uma pedra de toque para uma mudança de paradigma e para a ressurreição dos velhos valores da Europa como a solidariedade, bem estar social e integração. Como se portaram os Socialistas Europeus? Que garantias temos nós, os que neles não militam, para acreditar que serão capazes de ser diferentes e terem força para afrontar as forças pró austeridade e pró amputação dos direitos dos trabalhadores e restantes cidadãos, como se constatou no quadro Grego? De que lado estiveram?

Esta é para mim a questão vital: que posição tem o Partido Socialista Europeu no que respeita às Dívidas soberanas, ao modo como foram geradas, ao modo como devem ser tratadas e como devem ser renegociadas e como poderá o PS Português dissociar-se ou alhear-se deste rumo e desta conduta? Que posição tem perante a subjugação ao directório que manda na Europa e promove a desigualdade e a exclusão de Países e pessoas? Que posição tem perante o Euro e a sua encruzilhada e a constatação que é um factor de desunião e não de união, um factor de discrepância e não de aproximação? E o Tratado orçamental que assinou e se torna um garrote inibidor de qualquer recuperação? Que posição tem perante a prepotência Alemã que, a continuar, levará à desintegração da Europa e do modo como foi formada, desenvolvida e sonhada? Que poderá fazer de novo e diferente o PS Português se os seus mais próximos aliados apoiam outras teses? E por fim: Que foi António Costa fazer ao Bildberg? De tudo o que é secreto é legítimo que se levantem suspeitas.

É este olhar para o futuro que me interessa e move o meu voto, esse único direito que me assiste de vez em quando para me convencer a mim próprio que vivo numa democracia representativa onde ele conta, e onde num só e isolado gesto eu resumo todo isso.

E que me diz que a minha preocupação não é o futuro do passado mas sim o Futuro do Futuro!

E não estou convencido que valha a pena mudar o meu voto!

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