PERPLEXO!

É como eu me sinto! E estou perplexo ou sinto perplexidade porque, perante tudo o que sei, vejo, ouço e leio, me sinto surpreso, confundido, atrapalhado, hesitante, indeciso e com tantas dúvidas que sou levado a perguntar-me: serei eu que estou estupidificado, serei eu que não atinjo, que não entendo, que não compreendo e vejo o óbvio, serei eu que não sei ouvir o que me querem dizer, será que sou eu que não sei interpretar? É que eu tendo a duvidar sempre  daquilo que me querem transmitir e a pensar que, caramba, aquilo não me satisfaz, só ouço arremedos da verdade, a verdade não pode ser o que me apresentam…será que eu é que estou a ficar louco?

Será que a “normalidade” virou “ anormalidade” e eu é que não sou “ normal”?

E que é que eu vejo e sinto? Primeiramente que a estupidez e a falta de verdade se tornaram normais e tão normais que as pessoas, de tão cansadas e com as suas objectivas direccionadas para coisas mais prementes, como sobreviver, manter o emprego, arranjar um emprego, dar de comer aos filhos, viver em suma, já não ligam. Alheiam-se e já não querem saber. E tudo se tornou banal. O contraditório tornou-se um absurdo de ideias feitas e utilizadas unicamente para, seja de que modo for, contrariar a tese adversária. Tudo se transformou numa “ feira” imensa onde, quem vive na bolha da política, tudo faz para vender o seu produto e valha tudo para o vender, recorrendo à mentira, à mistificação e mesmo à mais profunda estupidez, mas ultrapassando tudo o que me ensinaram dever ser a dignidade, os basilares princípios da ética e moral públicas e o respeito pelos outros. Será que me querem mesmo estupidificar?

Sinto que a nossa sociedade está a correr a passos rápidos para a normalização da anormalidade e eu sinto-me perplexo porque não subscrevo este estado de coisas. Porque esta não é a “normalidade” com que devíamos prosseguir a nossa vida, com direitos e deveres, com obrigações, com barreiras estabelecidas e comummente aceites, imutáveis, com regras universais, com sentimentos plurais nas regras definidas mas com respeito por essas regras por esse alguém a quem, em dado momento, é dado o poder e a obrigação de por elas zelar. Governar, em suma.

E sinto-me perplexo porque esta vida em comum que deveria ser pautada por princípios rígidos de moral e ética públicas se está a transformar num terreno de lutas mesquinhas, de egoísmos sem sentido nem razão e em que o poder, o estar no poder, o manobrar os cordelinhos do poder, se tornou no único último desiderato. E, para o obter, por quem ele pugna, não se inibe de afirmar que o bem está em si e no outro lado tudo o que de mal existe. E mais perplexo me sinto quando constato que o outro lado faz precisamente o mesmo transformando, como disse, e fatalmente, a normalidade em anormalidade.

E sinto-me tanto mais perplexo porque sei e sinto que a realidade não é assim, as nossas vidas não são assim e não se pautam, nem se podem pautar, por este tipo de normalidade. No dia a dia discutimos Vida, pensa-se como se poderá viver melhor, ser melhor governado, questiona-se, dão-se explicações, tenta-se ir ao fundo das coisas, ou deveria tentar ir-se mas, quando se trata de eleger seja quem for ou para o que for, tudo se transforma. Do Desemprego discute-se os números e não o Desemprego e as suas causas e soluções; das Exportações o seu valor se subida ou de descida e nunca o modo como deverão subir criteriosa e sustentadamente; das importações idem; da Educação realça-se o facto de terem entrado mais pessoas para as Universidades mas não se pensa na Educação como um todo e os seus problemas; dos Professores nem se fala…e, se algo correu bem, arroga-se imediatamente o mérito, que rapidamente se esquece quando também algo corre mal. Do crescimento da produção industrial fez-se uma conferência de imprensa gloriosa para realçar o seu crescimento de 2% em Junho, comparando com Junho do ano passado, sem atender a que foi inferior a Maio, como se isso fosse o realmente importante quando importante é saber como está o tecido industrial, o que produzimos e como produzimos e como podemos resistir a choques, a turbulências ou a factores exógenos que a pode alterar. Tudo se transforma, tudo se esquece e tudo se desvanece. Tudo se torna irracional e discute-se o efémero sem ter em conta o essencial: a preparação do futuro!

Como a guerra dos cartazes! Se um diz” É tempo de confiança”, o outro diz logo a seguir: “ É tempo de ter confiança”! Se um coloca um cartaz tipo IURD o outro não fica atrás e e promove um “ Care” qualquer, com dentes limpos e lavados, numa orgia de estupidez. Que se passa afinal? Ficou tudo doido? A verdade não deveria ser só uma, baseada em princípios iguais, deveres iguais e normas iguais? Então porquê tanta dicotomia?

Mas a minha perplexidade transforma-se em pena e dor porque os números, que eu sempre aprendi serem imutáveis, passaram a poder ler-se de todas as maneiras e a serem tratados como ilusão. E como armas de arremesso lançando a dúvida. E a paz comum, aquela que nos fazia falar com todas as pessoas nos cafés, nos restaurantes, nos bares, nas festas e convívios passou a ser uma paz suspensa. E tornamo-nos animalescamente intoleráveis e pomos mesmo em causa a sanidade de amigos porque os consideramos vendidos, vendidos à burrice porque apoiam aqueles que consideramos sem escrúpulos porque utilizam a mentira e a falsidade como norma.

E fico perplexo! E fico perplexo porque para não entrar nessa “ normalidade”, essa irracional onda que, mesmo sem contarmos, nos pode atingir, somos obrigados a fazer um esforço enorme de contenção e racionalização. Escusado se vivêssemos em normalidade.

E sinto-me perplexo porque eu sei que, vendo a história recente, é de fácil conclusão sabermos que temos vindo a regredir, sempre a regredir. Eu sei que o mundo em que nasci, e já nasci há muito tempo, era um mundo que nos prometia prosperidade, uma paulatina prosperidade, se trabalhássemos, se fossemos abnegados, se fossemos sérios e estudiosos, se fossemos em frente, se procurássemos a luz, porque sabendo que ela estava ao nosso lado, sabíamos que ela existia. A gente sabia e nos era ensinado que devagar, com denodo e com esforço a gente lá ia, passo a passo, nível a nível, um carro fraco e depois um melhor, uma ida a um restaurante de vez em quando, depois uma vez por mês e depois semana a semana, mais um móvel e um electrodoméstico, depois uma televisão melhor…eu sei lá, a gente sabia que ia evoluindo, nós e todos os outros, vivíamos em normalidade! Sabíamos quando íamos ser aumentados, que os nossos filhos tinham escolas, tinham liceus e uma entrada difícil para a Universidade, elitista ainda mas cada vez mais aberta…que depois alguma colocação seria procurada mas alguma coisa se arranjaria…vivia-se em normalidade! E depois?

Depois veio a perplexidade! Começamos a regredir depois de um salto brusco, anormal e irracional, tão brusco qual mola que nos levaria com facilidade à Lua. E que depois nos fez sofrer aquele brutal espalhanço e cujas sequelas temos vindo a sofrer. De quem foi a culpa? De todos e de ninguém. Foi um “ ecstasy” colectivo. De repente aquilo que íamos conseguindo paulatina e vagarosamente, ficou escancarado. A luta deixou de fazer sentido : tudo estava ali à mão. Um aluguer de um apartamento de duas assoalhadas? Não! Uma vivenda, mesmo que geminada, mas com tudo. O Banco “ dava”. O Banco “ dava” tudo… Depois veio a ressaca. O Banco que “ dava” ficou depenado e a quem foi “ dado” foi despejado. Mas o Banco que “ dava” foi assistido e aquele a quem foi “ dado” foi abandonado.

Mas tudo voltou à velha fórmula? Nem pensar! Daí a perplexidade. E eu sinto-me perplexo porque dá a ideia de que ninguém percebeu e dá a ideia também de que ninguém quer perceber. Que os tempos mudaram e mudaram drasticamente. A normalidade já não é a mesma. A velha normalidade que admitia alguns princípios, que assumia algumas linhas comportamentais de convivência e racionalidade sociais deixou de existir. Passou-se à desregulação, ao salve-se quem puder, ao cada um para si mesmo, à desresponsabilização e à revogabilidade do irrevogável. Passou-se à perplexidade.

E esta desregulação feita de regras sem fim, um universo de diplomas e leis que só uma minoria conhece, das quais conhecemos apenas as que nos penalizam, trouxe-nos aquilo que pior nos poderia trazer: dirigentes fracos, muito fracos, de irrelevante conhecimento e cultura, sem força nem moral, sem ética nem princípios, sem ideias nem desideratos e sem qualquer sonho de elevação pátria. Não só aqui mas por toda a Europa e Mundo. Com honrosas excepções. Que é feito dos De Gaule, dos Miterrand, dos Adenauer, dos Wkillie Brandt, dos Olaf Palme? Esses visionários estadistas agora tão mal caricaturados por essa irrelevante gente que por cá pulula? Como é possível que uma Sara Pallin ou um Ronald Trump se consigam auto propor como candidatos ao destino da grande América que, mesmo antes, conseguiu eleger o mais brilhante Presidente da sua história, e ainda por cima negro? Como é possível tanta regressão?

E essa desregulação trouxe-nos corruptos! Sim, corruptos, quer activa quer passivamente, porque tão corrupto é aquele que corrompe ou é corrompido, como aquele que sendo dirigente e saiba da corrupção deixa e autoriza que ela campeie.

E pusilânimes! Sim, pusilânimes porque, sendo fracos, permitem e deixam que nos comprem, dão-nos mesmo em venda e entregam as nossas riquezas em expiação dos males advindos da sua activa ou consentida corrupção.

E irresponsáveis! Sim, irresponsáveis porque deixam depois que todo um Povo sofra e perca a ideia de um futuro que sempre teve, a ideia de um futuro melhor para os seus que sempre teve e sofra pagando por tudo aquilo que nunca teve nem usufruiu e pague pelos pecados que nunca cometeu.

E sinto-me perplexo! E sinto-me perplexo por ver esta insensibilidade reinante, por ver gente que é proposta a dirigente acusar os “ velhos” de serem os culpados deste estado de coisas, uns empecilhos que não deveriam estar vivos, porque existindo estorvam, como se governar ou dirigir a causa pública não fosse sempre o ajudar a viver. Por ver serem os jovens usados, eles o futuro do país ou de qualquer País, como coisa supérflua, excedentária e dizendo-lhes que vão embora daqui porque aqui já não cabem. Porque aqui só cabem eles, eles e os seus, esses seres pensantes e iluminados que não passam de imbecis retrógrados, eles os que vão restar para tomar conta disto quando disto já nada restar. E sinto-me perplexo porque me pergunto: como é possível tanta anormalidade?

E sinto-me perplexo porque, nesta roda viva movida a insanidade, vejo gente que eu até me habituei a ouvir e apreciar a deixar-se entrar nessa roda apenas em nome de um partido político, já totalmente descaracterizado, como se de um clube de futebol se tratasse. É o seu partido, dizem eles. Pode ter mudado radicalmente a sua filosofia, os seus princípios programáticos e mesmo a sua essência que eles continuam a defendê-lo. Contra o outro, o arqui-inimigo, o demónio que nos quer usurpar o lugar. Foram para esse partido porque eram adeptos da social democracia, como tantos nós, porque esta defendia o Estado Social solidário e geracional, onde todos pagavam para todos…e defendiam convictamente isso tudo! Pois agora, implicitamente, defendem o seu contrário, ou se não defendem apoiam. “ Não consigo votar n outro partido”, dizem muitos desses. E eu sinto-me perplexo porque não achava isto possível vindo de pessoas inteligentes e cultas. Eu pensava que cada cabeça era uma cabeça e respondia por si só como ser pensante.

E sinto-me finalmente perplexo porque sinto que isto não vai mudar. E não vai mudar, e daí a minha perplexidade, porque as pessoas demitiram-se de pensar, demitiram-se de agir. Preferem estar no seu cantinho, nesse cantinho que julgam uma fortaleza inexpugnável, mas que não o é! Nem por sonhos…

E resto finalmente perplexo porque sinto e vejo que, quem algo poderia mudar, parece nada querer mudar!

Que merda…

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