“ BONECOS DE TRAPOS”

Esta tarde, enquanto em frente à TV aguardava o visionamento de uma coisa fútil- a conclusão da etapa de hoje da Vuelta- mudei para um canal de notícias e dei por mim com lágrimas nos olhos vendo o drama por que passa toda a gente que foge à morte e dela se quer libertar.

Já não falo apenas daquele “ boneco de trapos”, que deu à costa numa praia Turca e se tornou rapidamente um ícone, porque de um “ boneco de trapos” se tratava pois dele, sem vida, sem alma e sem nada, só restavam aqueles simples trapilhos que lhe vestiram. Todo o seu ser deve ter sido tomado por um Poseidon em fúria e levado por um Hades para o seu refúgio, pois naqueles mares eles mandam.

Ser humano já não era para ser levado com tanto carinho. Teria sido antes, antes que aquele Ser Humano, ainda por cima uma criança, se tivesse transformado num “ boneco de trapos”. A sua posição inerte e a sua indefesa solidão transtornaram meio mundo, a mim também e também chorei. Era um “ boneco de trapos” e nada se abandona assim… ele e todos os outros que no mar da salvação encontraram o seu fim, tratados como “  bonecos de trapos”…

Mas o que eram as minhas lágrimas? O que eram se eu estava apenas emocionado, sentado no sofá, esparramado mesmo, e vendo aquilo apenas como uma consequente evidência? Levantei-me e disse para comigo: isto não pode ser! Isto só sucede porque me sinto incomodado na minha comodidade. Porque, se estou longe, que raio eu posso fazer?

Descobri que o meu choro não passava de raiva. De raiva por todos os que permitem que isto aconteça. Pelos que eu estava a ver falar continuando a defender os muros. De raiva pela passividade de um “ politburo” europeu que não consegue reagir, não consegue unir-se num plano e não consegue sequer assumir que é uma União. Por não conseguirem sequer colocar na ordem um membro seu, que os desafia e lhes imputa responsabilidades até.

Esta imagem solitária, mas de uma dimensão sem cálculo, vem de algum modo perturbar todas as imagens longínquas com que nos habituamos a ver e a lidar: as dos fuzilamentos em massa na guerra civil espanhola, as dos milhares de homens e mulheres famélicos e esqueléticos esperando a câmara de gás no Holocausto, dos milhões de mortos que ela provocou e dos camiões pejados de esqueletos a caminho de uma vala comum…tudo é muito distante e longínquo e nem à fome de que os nossos pais e avós nos falavam dávamos importância. Porquê? Porque passamos a viver na certeza de que tal não haveria mais de se passar.

Tínhamos imagens mais recentes, das carnificinas nas fronteiras do Sudão e do Ruanda, não sabíamos bem em nome de quê, daqueles campos imensos de refugiados e, ainda mais recentemente, de todos os inocentes desaparecidos da vida nos conflitos do Afeganistão, do Paquistão, do Iraque, do Egipto…eu sei lá que mais. Mas era longe, era muito longe e aqui não chegaria. Tínhamos pena, praguejávamos contra este mundo filho da puta, mas sentíamos impotência e seguíamos a nossa vida, calando.

Não estávamos preparados para isto. Quando um atentado bombista acontecia no Iraque e morriam 500 pessoas nós mudávamos de canal fugindo daquele horror. Não conseguíamos sequer ver porque nos fazia infelizes. Era muita gente, era muito ser humano, pois era mas era longe. Aquilo haveria de resolver-se, pensávamos nós. Mais um atentado no Iraque e mais centenas de mortos e dizíamos: quando é que aquilo acaba, caramba? Mas aquele conflito não nos dizia respeito e cá nunca chegaria. E assistíamos passivamente ao caminhar impante dos responsáveis por tudo aquilo, George W. Busch, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, ganhando rios de dinheiro, ocupando cargos e fazendo conferências. E, ciosos da nossa quietude, não os acusamos e muitos de nós foram votando a legitimidade da sua crueldade e do seu roubo.

E chegamos aqui, a esta Europa governada por “ Eunucos”, por homens sem barba e assexuados. E sem espinha. Apenas engravatados dizendo palavras de circunstância e adiando, chutando para a frente, sempre para a frente. Até que a bala fez ricochete e cá chegou. E como chegou com violência acordou consciências. Que “porra” todos dissemos! Começou por Lampeduza, por Malta… e foi crescendo o número de naufrágios e de mortos. E foi crescendo a impotência de quem os recebia ou tentava resgatar. E de quem tinha que os enterrar. E passaram, pasme-se, a ter a responsabilidade, por azar da sua situação geográfica, de esse trabalho fazer.

Depois, e depois e depois a coisa foi crescendo e a seguir aos magrebinos e sul sarianos vieram os Sírios, fugindo da guerra civil, procurando as ilhas gregas mais próximas : Kos e Rodes. Nesta até já estive e conheço, ali em frente à costa Turca, e dei comigo a concluir : só podem estar de passagem! E a verdade é que dali subiram para a Albânia, Macedónia, Montenegro, Sérvia…rumo ao “el dorado Alemão”. Só que a seguir encontraram os muros, os muros da Eslováquia, da Roménia, da Áustria e da Hungria. Da Hungria do seu governo fascista e dos seus altos muros de arame farpado.

E vou concluindo : isto é uma guerra, pois de uma guerra se trata. Uma guerra civilizacional, uma guerra da dignidade e dos valores humanos da solidariedade contra a abstracção e do inconformismo contra o alheamento.

E fomos, finalmente, convocados. Porque já não aguentávamos o nosso choro e sentimos que agora, agora sim, a opinião pública teria que ter peso e um peso definitivo. E passamos a exigir à Europa uma solução solidária como clamou António Guterres. Mas também, em todos os Países, as pessoas, as organizações, os municípios etc. foram-se disponibilizando para o acolhimento e deixando os governos sem opção contrária. Até Merkel, e ainda bem, soube ler o clamor do Povo e tomou as rédeas mostrando que, para o bem e para o mal, ainda é o único líder com sentido na Europa. Vamos estar atentos e fazer valer a nossa voz. Agora estamos mesmo convocados…

Nota: Há gente, e amigos meus também, que dizendo-se pragmática entende e alvitra que a solução está na origem. A solução definitiva está na origem, é claro. Mas agora? Como? Como se resolve o problema da guerra civil na Síria se os mesmos países vendem armamento a ambos os lados e esses mesmos países, alguns europeus, lhes compram o petróleo que mantém a guerra e paga o armamento? E entretanto as pessoas? Sim, as pessoas?

Mas a este tema voltarei depois.

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