Das MEMÓRIAS do RESGATE ao RESGATE das MEMÓRIAS.

Há imensas coisas que me deixam perplexo, e dessa minha perplexidade até já escrevi, mas a tão curta memória de tanta gente ainda me deixa mais.

Foi há pouco mais de quatro anos que tudo se passou, que sucederam acontecimentos em catadupa, que todos seguimos pelos jornais e pela TV e que levaram à queda do anterior governo ( o de Sócrates ) e à chamada das instituições internacionais ( Troika) para o tal resgate e programa de assistência financeira.

Todos nos lembramos perfeitamente e é, portanto, confrangedor que quem até viveu mais intensamente esses acontecimentos não queira agora recordá-los com verdade e isenção. Esse programa teve como origem as dificuldades de financiamento do país e da banca provocados pela crise do sistema financeiro internacional e da chamada crise das dívidas soberanas.

Essas dificuldades seriam colmatadas, transitoriamente ou não, com o chamado PEC4, que tinha o acordo de Angela Merkel e de outras instituições, mas não tendo obtido o acordo interno Sócrates foi obrigado a demitir-se e a pedir o dito resgate. Todos nos lembramos. No mínimo quem estava atento lembra-se.

Esta é, resumidamente, a verdade histórica mas para se chegar a esse fim a história teve desenvolvimentos, teve pressões e teve interlocutores.

Antes de ir à sequência dos factos que, como disse, me causa espanto terem desaparecido da memória de muitos e mais espanto me causa reiterarem o esquecimento quando tudo está registado, eu quero expressar também a minha perplexidade com a troca de acusações sobre quem chamou a Troika e, no mesmo sentido, quem pediu o resgate ou quem não o pediu e com a necessidade de repetida afirmação de Passos Coelho de que não foi ele quem chamou a Troika!

Porquê eu ainda não consegui vislumbrar mas também ouço repetidamente e à exaustão ter sido ele a salvar o País da bancarrota! Ora sendo inquestionável que quem pediu o Resgate foi Sócrates, e formalmente tinha mesmo que ser porque era ele o PM em exercício, tendo sido esse mesmo Resgate que nos trouxe os financiamentos que evitaram a bancarrota e, acrescento, a eminente falência de alguns bancos demasiado expostos na bolha imobiliária e nas dívidas soberanas, porque acusa Passos Coelho o PS de ter pedido o Resgate e ao mesmo tempo dizer ter sido ele quem evitou a bancarrota? Conseguem perceber? Se assim é, e foi, quem salvou o País da bancarrota foi Sócrates! Ou então não chamou a Troika! Decida-se Passos Coelho! Concluir o contrário é silogismo! Em que ficamos, afinal?

Outra verdade histórica é que, depois, quem realmente implementou o memorando de entendimento e o programa de assistência foi este governo, e tinha que o ser, simplesmente porque ganhou as eleições antecipadas que o seu partido e outros provocaram. E se era entretanto governo tinha que ser ele a implementá-las, do mesmo modo que teria que ser Sócrates a implementar o PEC4 se o mesmo tivesse sido aprovado. E La Palice não diria melhor!

Já várias vezes aqui escrevi sobre o “ mito” da bancarrota. Ora uma bancarrota acontece, apenas e só, quando em determinado momento um País não consegue, por razões diversas que aqui não cabe enumerar, solver os seus compromissos de dívida imediatos, por dificuldades de refinanciamento dessa mesma dívida. E só de dívida se trata porque para o restante tem o orçamento e as receitas comuns (impostos) para cumprir os seus compromissos internos, como salários, pensões, subsídios etc.

Acontece que naquela altura, coincidindo com a grave crise do sistema internacional, vários países tinham o mesmo problema pois tinham concentrados naquele ano e no seguinte importantes tranches de dívida a solver de valor elevado e, por dificuldades de financiamento dos seus bancos, a maior parte deles cotados pelas agência de rating como “ lixo” como nos lembramos, por uma conjuntura de incerteza e desconfiança da banca internacional que teve o seu epílogo com a falência do Lemmon Brothers, o BCE suspendeu ou limitou as injecções de liquidez a essa mesma banca e esses estados ficaram reféns de um programa de assistência para esses problema ultrapassarem.

Daí que a Irlanda foi obrigada a pedir um Resgate para resgatar a banca, a Espanha idem e na Grécia e Portugal, de uma maneira indirecta, o mesmo. Lembram-se, não lembram?

As emissões de dívida dos países quando são colocadas, e são colocadas sempre para solver dívidas vincendas, são compradas pelos mais variados investidores, por fundos, fundos soberanos e por fundos do petróleo até, através da banca. Não há outro meio! E a banca aplica, aplica naquilo que lhe apetece, subverte a sua função e especula no lucro imediato e depois…depois os resgates acontecem todos para a socorrer. E logo e em primeiro lugar dos seus investimentos em dívidas soberanas. Não vou agora aqui falar, porque até já escrevi, acerca dívidas imorais, das odiosas, das impagáveis e insustentáveis ou ilegais, porque tudo isso aconteceu com a Grécia, na Irlanda, em Espanha e Portugal também. E, pagando os resgates os investimentos da banca eles contemplaram, ainda, uma certa “tranche” para eles se recapitalizarem, para apresentarem os indicadores de solvabilidade exigidos e para suprir as imparidades que depois foram reflectidas nas suas contas como resultados negativos ( prejuízos ) de elevado valor nos anos subsequentes. Limpeza de balanços, como se usa dizer.

E é claro que aqui poderíamos acrescentar que a banca na sua generalidade andou anos e anos a brincar com o fogo, exorbitou muitas vezes das suas atribuições, usou indevidamente o dinheiro dos seus depositantes quebrando a regra de confiança que isso implica e no fim, argumentando da sua lógica importância na economia, no seu financiamento, na segurança dos depósitos e na sustentabilidade do sistema…leva isto sempre para o mesmo fim: quem paga esses dislates? Os mesmos de sempre, os contribuintes…

Mas retornando à memória, Passos Coelho e a sua coligação, partindo desse incrível e ignóbil pressuposto de que as pessoas já não se lembram e perderam a memória mesmo, têm vindo repetidamente a afirmar que nunca quiseram a vinda da Troika. É MENTIRA! Que, justificando toda a política austeritária a seguir imposta, muito para além do que estava estabelecido no memorando, como já é dado confirmado, foi devido à crise e não à recessão provocada pelas suas políticas que o desemprego subiu em flecha, a emigração foi em massa e o aumento da carga fiscal uma coisa nunca vista! É MENTIRA, é uma mentira sem nome. E, para terminar, que não defenderam politicamente a vinda da Troika! MENTIRA, MENTIRA  e MENTIRA! Como dizia aquela senhora de Braga, “…Não passam de uns mentirosos…!”.

Mas vamos lá resgatar as memórias e vamos aos factos, mas antes um pequeno detalhe sobre Eduardo Catroga, porque não vale a pena estender a escrita pois está tudo escancarado na Net, nos Blogues, no Facebook e depois de tudo e da sua ida para Chairman da EDP a seguir à privatização está tudo dito. A sua afirmação de que o Memorando era o programa de governo que Portugal nunca tivera em décadas, que o PSD devia adoptá-lo como seu programa e que sentia reconfortado por ele e o PSD terem sido decisivos nessa negociação diz tudo. E todos nos lembramos. Ou não? Não?

Lembrem-se então:

  • 15/03/11- Passos Coelho declara que Portugal precisa de ajuda externa. Que estamos com as calças na mão, dizia ele…
  • 16/03/11- Teixeira dos Santos afirma que a inviabilização do PEC 4 empurrará o país para uma ajuda externa..
  • 19/03/11- Sócrates afirma-se indisponível para governar com o FMI…
  • 23/03/11- O parlamento rejeita o PEC 4, Sócrates demite-se e vai-se para eleições antecipadas ( que em Portugal demoram, demoram…)…
  • 25/03/11- Mesmo após o chumbo do PEC 4 Sócrates, agora PM em gestão, recusa-se a pedir ajuda externa…
  • 26/03/11- Passos declara que não se pode diabolizar o FMI pois este existe para ajudar os países a superar as crises de financiamento… Leram bem? Crises de financiamento!
  • 31/03/11- Enquanto Sócrates continuava a rejeitar o pedido de ajuda externa, Passos Coelho, em conjunto com Miguel Macedo, assina uma carta oficial do PSD, carta entregue pelos serviços do Protocolo, tendo como destinatários Sócrates e Cavaco, defendendo o pedido de resgate.
  • 01/04/11- Os mesmos destinatários recebem carta de teor idêntico subscrita desta vez por Carlos Costa, governador do banco de Portugal…
  • 02/04/11- Passos Coelho, já em campanha eleitoral, afirma que, se for primeiro ministro, não hesitará em pedir ajuda externa e que as dificuldades seriam ultrapassadas sem austeridade… Garantia ele, mas…
  • 02/04/11- No mesmo dia Paulo Portas declara à Lusa o seu apoio ao pedido de resgate, dizendo não fazer parte daqueles que diabolizam o FMI…
  • 04/04/11- Esta data é muito importante! Os principais banqueiros do País à época, Ricardo Salgado do Bes, Carlos Santos Ferreira do BCP, Faria de Oliveira da CGD, Fernando Ulrich do BPI e Nuno Amado do Santander-Totta, reúnem-se com Carlos Costa na sede do BP e dirigem-se depois ao Ministério das Finanças onde formulam idêntico pedido a Teixeira dos Santos. Queriam o resgate e declaram-nos depois publicamente em entrevistas concertadas à TVI. Não me digam que não se lembram…
  • 05/04/11- Os mesmos banqueiros reúnem-se agora com Passos Coelho e no dia seguinte, 06/04/11, é a vez de Cavaco os receber em Belém. Eles queriam o resgate. Eles sabiam que o resgate era para os resgatar e para resgatar as suas imprudentes gestões…

Estes são alguns dos factos históricos, indesmentíveis e de conclusão óbvia, mas durante esses frenéticos dias os juros das dívidas não paravam de subir, os mercados estavam em polvorosa, o BCE não intervinha, não tinha força nem meios para intervir, e deu-se o já esperado : nessa mesma tarde Teixeira dos Santos declara informalmente ao Jornal de Negócios que era inevitável a vinda da Troika e só depois disso, e depois de com ele se ter incompatibilizado, é que Sócrates finalmente aceita o recurso ao auxílio financeiro internacional.

  • 11/04/11- Passos Coelho reafirma na RTP a sua concordância dizendo, sem sofismas, que o PSD apoiava o pedido de ajuda.
  • 03/05/11- Eduardo Catroga, novamente, afirma que o memorando de entendimento provava que o PEC 4 era insuficiente ( Passos Coelho tinha rejeitado porque era demasiado duro, lembram-se?)..e que o memorando era melhor porque pressupunha um programa de austeridade que só iria cortar gordura… e, mais uma vez, tinha sido especialmente pelo PSD, principal partido da oposição à altura. Gorduras…

E agora caros desmemoriados : já resgataram a vossa memória?

Resumindo: Daqui resulta o óbvio! Quem mesmo não querendo quem pediu a ajuda foi Sócrates. Tinha que ser ele pois era PM e não Teixeira dos Santos, Cavaco,  Carlos Costa ou Passos Coelho. Ele é que era o PM em funções. Mas quem provocou o seu pedido? Estamos com certeza esclarecidos.

Finalmente: em 16/05/13, dois anos depois, António Lobo Xavier, na Quadratura do Círculo, diz o óbvio: “ A entrada da Troika resulta da pressão exercida pelo PSD e CDS, ao arrepio de Angela Merkel que não queria uma intervenção concertada, regulada, com um memorando, com o aparato de tudo ser medido à lupa…” dizia ele. Afirma ainda que a entrada em Portugal das três instituições que compõem a Troika foi liderada por um “ aprendiz de feiticeiro” que era Passos Coelho, clarificou.

Eu lembro-me disto tudo! Vocês não?

Mas, afinal, quem desejou a Troika e o Resgate? Às tantas fui eu, querem ver?…

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