“ MAS QUE PARVO QUE EU SOU…”

Ao lembrar-me desta frase para título deste texto/crónica eu recordei os Deolinda e aquela canção com o título igual, ou praticamente igual, que eles fizeram para denunciar o facto de toda uma juventude estudar para, no fim, ser escrava. Todos lembram e reconhecem a sua premente acuidade. E também o tenebroso da situação…

E assim, quando me surgiu a frase, temi estar a plagiá-los. Mas, não tendo bem a certeza e, a ser verdade, peço-lhes de antemão desculpa, mas mesmo assim continuo porque o significado que a ela vou dar é nitidamente diferente daquele que eles lhe conferiram.

Na verdade neste caso, e ao contrário do intuito dos Deolinda, este texto é dirigido às afirmações de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, com todo o respeito como atestam, mesmo reservando-me o direito de seu nome não referir, e às suas doutas, premonitórias, conclusivas e inultrapassáveis declarações de que tudo teria estudado e previsto todos os cenários que proviessem das Eleições, repito “todos”, e estaria, portanto, perfeita e eficazmente prevenido, escudado e preparado para qualquer cenário que delas adviessem e sabendo, deste modo e como mais ninguém, saber interpretar a suprema vontade do Povo! Ele disse e todos ouvimos ou lemos, não foi?

Todos ouvimos e até nos interrogamos : assim como aquelas garantias todas que ele enumerou no caso do BES, não? Assim como naqueles outros casos todos em que ele dizia não ter dúvidas e depois…mas…

… Mas agora permanece calado e inerte, não é? Será que mandou todo aquele acervo de conselheiros de férias e agora não consegue decidir? Será que a Maria, em estado de depressão pelo iminente adeus ao palácio, não consegue já alvitrar? A verdade é que permanece calado e o certo é que, substituindo-se a si mesmo, resolveu antecipar os tramites e resolveu nomear Passos Coelho para iniciar as “ démarches” para a obtenção dos tais consensos para a indigitação do Primeiro Ministro que ele tanto anseia: ele mesmo, Passos Coelho! E, precavendo-se de inúteis iniciativas, deixou que outros fizessem o seu constitucional trabalho. Com o sucesso que vemos e a que vamos assistindo…

E eu, burro que sou, pensando que ele, em fim de mandato, auspiciaria ficar na História como o grande “ Negociador” , constato se arriscar a ficar na mesma como o grande “ Demissionário”! E, assim, não querendo mesmo plagiar os Deolinda, arrisco assumir: “ Que parvo que eu sou!”.

E porquê? Porque eu, quando ele em 2013 ele, perante aquela encruzilhada crise, resolveu presentear Seguro com a promessa de eleições dali a um ano se ele aceitasse o consenso tripartido que propunha, pensei estar defronte de um estadista sagaz, eficaz e brilhante. E pensei: aquilo sim, aquilo era uma proposta só atingível por políticos de sabedoria genial e ímpar e só assemelhável à daqueles que estavam na mesa das negociações! E a sabedoria e sagacidade de todos era tanta, tão exibida e demonstrada que…não chegaram a acordo!

E eu pensei: “ Que burro que eu sou!”. É que eu, se não fosse burro, teria esperado de toda aquela sagacidade e sentido de Estado uma resposta positiva e teríamos evitado chegar a esta situação, uma situação que sendo por todos prevista, acima de todos por sua Excelência o Senhor Presidente da República cujo nome me escuso de pronunciar, afinal não o foi! E eu, burro que sou, que nela repetidamente pensei, perguntei-me: como é que eles, e ele especialmente que tem 38 conselheiros mais a Maria o genro e a filha, não pensaram nesta hipótese? Mas qual hipótese? Ora qual hipótese : a da Coligação não ter maioria, ora! Mas convenhamos que também é maldade dos “ deuses” : quem poderia dentre todos eles e com toda a sua sabedoria e conhecimento do Povo eleitor , em são juízo, pensar que essa hipótese era equacionável?

Quando ele, com aquele seu sorriso desdenhoso de tão pretensa superioridade, o disse eu, mesmo rescaldado, até acreditei. Não era coisa muita, pensei eu! O homem não seria tão imprevidente assim. E se ele, no caso do BES, no seu voluntarismo se tinha estrepado, certamente que não ia agora, ainda para mais em fim de mandato, sujar o seu “ insuperável” percurso e cair num erro tão básico e deixar uma impressão final de tamanho amadorismo e cegueira num pormenor tão basilar.

Mas caiu! Daí eu concluir, auto-retratando-me: Que parvo que eu sou! Porquê? Porque eu, na minha inocência e na minha condescendência perante o personagem, até cheguei a pensar que ele, não tendo mais o que fazer que não cuidar da Maria de da sua parca reforma, até tivesse mesmo previsto os cenários todos! Fui parvo, foi o que foi! Não previ e confiei,  e essa é que é a verdade!

Não previ que ele, mais os seus 38 conselheiros, mais o César das Neves, o Gomes Ferreira e os coisos desta vida, não tivessem previsto o que veio a suceder : A Coligação não teve a maioria!

E que, afinal, o tão derrotado que ele ainda não ouviu, lhe vá fazer a fatal pergunta: E agora? E agora Sr. Presidente?

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