O ESTERTOR de uma ESFINGE.

Quem não me respeita só pode de mim merecer comiseração e quem assim de mim ousou falar não pode ficar sem apreciação.

Eu ontem, e apesar de dele nada esperar de grandioso, ouvi, eu e todos, o discurso mais abjecto, mais bafiento, mais odioso e mais separacionista e antidemocrático que me lembro desde os tempos de Salazar. E, apesar de tudo, nunca o julguei assim possível. Mas foi.

E fiquei a saber de coisas que não supunha saber. A primeira é que, tendo votado na Esquerda e desejando democraticamente uma mudança de governo e seu estilo, sou um irresponsável e não gosto da Europa! Que também não gosto da estabilidade e que sou contra o Euro, contra os Tratados e contra a Nato. E que quero, “hélas”, a destruição da Europa! E que devo, por tudo isso, ser proscrito, eu e mais aqueles quase três milhões de Portugueses, aquele milhão que votaram nos partidos “anti-sistema”, PCP e BE, mais o milhão e setecentos que votaram no PS e que cometeram esse terrível crime de não viabilizarem o governo “ natural” da direita. Desses quase três milhões que votaram para que a direita fosse apeada do poder. Uma maioria, uma grande maioria!

Que, mesmo tendo eu votado no PS, o meu voto só seria válido se fosse para sufragar um governo de direita visto esta ter sido, injustamente no seu critério, minoritária. A direita que ele achava que deveria ter tido maioria, porque é ela e só ela que os mercados respeitam, as agências de rating toleram, os especuladores consideram, a banca venera e até o Barroso o diz. E eu estava a ouvir e a perguntar-me: mas o meu voto já não conta e só contará se for para viabilizar, legitimar ou caucionar aquilo que eu não quero? Como assim? E recordei-me de outros tempos, tempos em que ainda não votava mas sabia por muitos que votavam que o seu voto, tendo sido no oposto, era contado como da situação fosse. Vai dar quase ao mesmo na “ democrática” cabeça deste “ democrata” de esqueleto ainda inteiro, que ainda mantem cabelo, mas a quem já falta muito cérebro.

Ouvi que, no fundo, tendo votado em quem votei, num partido europeísta, esteio da integração de Portugal na Europa, moderado quanto às políticas económicas e pertencente até àquele tão celebrado “arco da governação”, porque o partido em quem votei, dando assim substância ao meu voto, não aceitou caucionar a continuação de um governo de direita minoritário, passei a pertencer à classe dos abjuráveis, dos dispensáveis, dos impossíveis, dos sarnentos, dos lazarentos, dos infectados, dos sem valor…e, já farto de procurar adjectivos, lembrei-me do brasileiro dito: “ Poxa cara, eu sou tudo isso?!”. O esqueleto falante diz que sim… Não que me surpreenda vindo de quem vem esse regressar ao saudoso passado quando, até por acaso, se comemora a chegada ao futuro! Foi há trinta anos, lembram-se? Ele regressou ao passado…

Não sei se ontem repararam mas, naquela pequena viagem desde a entrada na porta da sala até ao púlpito, ele apareceu tão cambaleante e hirto que me pareceu trazer a porta consigo, como protecção à sua rigidez de anestesiado por qualquer droga e tão teso que mais parecia ter tomado uma dose inteira de barbitúricos. Pareciam os passos de um autómato. Que o era! De Homem restava apenas a fria fala, estranha e insensível. Parecia querer cair e quebrar-se todo o seu esqueleto, não fosse a porta que levou consigo. Mas lá conseguiu chegar ao púlpito que, mesmo estando a curta distância, lhe pareceu uma eternidade lá chegar. Era grave o que tinha para dizer e tinha peso o que ia dizer. Todo o seu peso mais o peso da porta.

Com aquela postura de um sarcófago fechado e abstraído do mundo ou de qualquer sentimento, que não o do ódio, da vingança e do desprezo, ele lá debitou o que mandou que lhe escrevessem, com aquele ar desdenhoso e requebrado de quem alegrias na vida não tem, naquele estilo de desenho esfíngico e frígido, de quem quando se ri se nota não saber rir, falando como um autómato, renegando a felicidade a quem alegrias quer ter.

Com todo o fel que nele ainda existe. Contra mim, contra ti, contra nós todos, a maioria dos portugueses que não querem ser mumificados e querem ter alegria. Aqueles que ele abomina e nunca fizeram parte da sua corte nem da sua essência de vida. Da vida de uma esfinge, de um sarcófago ainda vivo a golpes de ódio, ainda com vida à base de linhagens embebido, mas com os mais asquerosos cheiros, em putrefacção.

E debitou todo o fel que a sua bílis ainda produz, gosmento e asqueroso, contra mim, contra ti, contra todos estes malvados, os que ousam pensar diferente e desejam uma liberdade autónoma, que ousam acreditar que o mundo avança,” como uma bola colorida nas mãos de uma criança”, como dizia o Poeta, que sonham com um Portugal melhor e mais digno, com uma vida melhor e livre de fatalismos, dos que gostam do ar puro e respirável, da música e da alegria em todos os rostos, dos que não se conformam, dos que gostam das palavras soltas ao vento, do vento, da chuva e do arco-íris, da natureza, da bondade e do sorriso, do Amor sem barreiras de ódios, da igualdade e da Liberdade.

A todos ele ofendeu e eu não me conformo. Que mal fizemos?

Que mal fizemos nós para além do “ pecado” de pensarmos diferente dele e dos dele? Sublevamo-nos? Pegamos em armas? Ocupamos o seu palácio? Marchamos contra a Europa? Derrubamos a NATO? Não! Parece que não mas fizemos algo de muito grave : ousaram alguns de nós questionar a moeda única, o sacrossanto EURO, porque entendem ser ele o entrave ao desenvolvimento e a razão de muita pobreza. E aqueles tratados que nos tolhem e nos fazem mais dependentes. Pecado, disse ele! São dogmas, afirmou ainda! Como se, por decreto, isso fosse no imediato possível e não respeitássemos as regras e elas não prevalecessem às nossas ideias e vontade de mudanças. Pecado, disse ele, como se não soubéssemos que querer não é poder e não basta querer para poder. Mas nós sabemos, nós sabemos muito bem e sabemos bem o que é viver em Democracia. Mas, para ele, pensá-lo já é um estigma, que merece um tratamento : o isolamento…

Assim disse o tal sarcófago, distribuindo ameaças, como nos filmes de terror…

Estava a ouvi-lo e a pensar: este indivíduo considera-me, a mim, a ti, a nós, uns “párias”, uns “párias” da sociedade, uns desclassificados, que não devíamos sequer votar, porque muitos de nós, quase 20%, um milhão de votantes, votaram em partidos que não contam… são proscritos! Um sarcófago o decidiu. Um esquelético títere, dono da petulância, do topete e da ousadia.

Mas o pesadelo está perto do fim, já está no seu estertor. Que tenha boas saídas e seja feliz no ermitério onde se vai refugiar, escondendo-se do mundo. Para onde vai carregado de penas, de ódios e desejos de vingança. E mantenha a felicidade que o seu fácies demonstra.

Amém…

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