O ACORDO e o BOM SENSO.

Quem do tudo pouco percebe, e é esse o meu caso, quando alguma opinião partilha, essa opinião é formada por uma intuição própria e resultante certamente da observação, da leitura e de alguma experiência adquirida também, mas terá sempre que ser balizada por um agregado comum : aquilo a que chamamos “ Bom Senso”. Esse mesmo “ Bom Senso” que eu exijo seja pressuposto permanente naquelas pessoas ou organizações, políticas ou outras, que negoceiam um acordo de governação ou outro qualquer acordo e que eu espero salutar e sensato.

Mas ter Bom Senso, o que é? É, antes que tudo, a capacidade de se fazerem coisas sensatas, se escolherem caminhos equilibrados e é agir com cautela. Medir os passos que se dão, em suma. Que não tem a ver com aquilo que denominados  de “Senso Comum”, porque este significa tudo aquilo que é transversal numa sociedade e comummente aceite : o que é tido por salutar e merece ser seguido. Mas o “Bom Senso” vai para além disso e é o elemento fundamental numa tomada de posição e naquele algo que pode unir quando a posição a tomar é comum.

É a capacidade que temos ou não temos de, perante uma importante decisão que decorre de um objectivo comum, sermos capazes de eleger o mais importante entre muitas coisas que, sendo para nós também muito importantes, não constituem dificuldades para uma resolução conjunta e nos obriga a abdicar de algo.

A nossa posição não deixa de ser para nós justa e importante mas o “ Bom Senso” diz que não é um denominador comum e, portanto, estando no lado oposto posições que também são importantes mas não coincidentes com as nossas também essas não devem obstar a uma decisão conjunta. Terá que prevalecer, portanto e sempre, o “ Bom Senso”.

Vem isto a propósito das negociações para um Acordo das Esquerdas Parlamentares conducente à formação de uma maioria parlamentar que assegure esse governo. Mas para que esse acordo seja possível e dele emane um governo forte e coeso, coerente e duradouro, para além do apelo ao já citado “ Bom Senso” será também necessário assumir que, havendo relações de forças díspares e pressupostos programáticos também distantes, a cedência de uns e outros seja nos aspectos que os unem e nunca nos que os dividem. E, por isso, é muito importante:

– Que seja inequívoco que quem liderará o governo é o PS e António Costa e o pano de fundo do programa de governo será o seu programa;

– Que sendo o PS um partido minoritário e a maioria só possa ser assegurada pelas outras forças à sua esquerda, seja concedida pelo PS, na devida proporção das suas forças, a introdução de objectivos mínimos e concretos que satisfaçam essas forças e não desvirtuem os seus programas;

– Que essas forças de apoio à viabilização do governo, dadas as suas posições relativas, não possam nem devam sobrepor-se ao partido maioritário na coligação e, como tal, não possam eleger como desideratos prioritários as linhas vermelhas que eles subscrevem mas fazem parte de uma estrutura europeia pelo que, mesmo delas discordando, não podem, por agora, enfrentar. Terão que ser postas de lado e para segundas núpcias, como se usa dizer;

– Que se tenha precisa consciência e conhecimento do estado das finanças públicas para, com vista à implementação de alguma medida com peso orçamental, ela seja bem estudada, se saiba bem das suas implicações e das alternativas que possam ser introduzidas para que o seu estado não seja agravado e o programa que se quer de melhoria das condições de vida das populações não se constitua, afinal, num fracasso;

– Que é preciso ter em consideração que não estamos sozinhos na Europa, que temos obrigações contratadas e que, não tendo moeda própria nem taxa de câmbio não temos instrumentos alternativos próprios, teremos que ser cumpridores e sendo-o exigirmos tratamento diferenciador. Não há volta a dar-lhe e a experiência nos prova isso mesmo;

– E que, por isso, quando se faz um acordo não há como não confiar na outra parte. Tem que estar tudo bem delineado e bem medido quer no essencial quer no acessório. Tem que ficar bem vincado tudo aquilo que os une e vai ser posto em prática e tem que ficar bem, mas muito bem mesmo, escrito o que fazer quando em alguns aspectos e circunstâncias divergirem. E aí o “ Bom Senso” terá sempre que prevalecer. O “ Bom Senso”, esse mesmo.

E terão que ir até ao fim! E esse ir até ao fim quer simplesmente dizer que terão que ser postas de lado, por princípio basilar, toda a espécie de estratégias particulares, de cada uma das forças, e tudo aquilo que, em determinado momento, surja mais salutar para uma delas e das suas bases de apoio.

Eu tenho para mim que, se se adoptarem políticas justas, simples e entendíveis, se as adversidades forem devidamente explicadas e os eleitores compreenderem o esforço efectuado, nada terão a temer porque, julgo eu e julgo que bem, que quem será penalizado é quem se queira aproveitar de alguma situação temporária. Até porque a comparação se mantém viva.

Acrescento também que, tendo-se já andado o que se andou e anunciado o que se anunciou o caminho já não tem retorno. Seria dramático para todos. Aí sim, aí seria o descalabro. Até porque, podem estar cientes todos os partidos envolvidos, todas as Esquerdas pretendem este acordo. As divergências políticas pessoais já foram postas de lado, sem dúvida que o foram, e seria defraudar as expectativas de todo esse Povo, os mais de 50% de votantes, tal acordo não ir avante.

Saberemos todos, no futuro, premiar este esforço. Haja vontade e haja “ Bom Senso”.

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