OS LEIGOS ( Para o Desenvolvimento )

Eu desde já me confesso um leigo nessa coisa dos “ Leigos”.

O Dicionário diz-me que um leigo é alguém que não mostra qualquer conhecimento sobre uma determinada matéria e, por isso, muito embora saiba o que são e significam os “ Leigos”, faltando-me para tal fenómeno bem compreender a integração, me considero mesmo um leigo.

Habituei-me a deles ouvir falar em Família, e a propósito da Religião Católica, como sendo pessoas que abdicam de parte do seu tempo participando activamente nas questões da Igreja, dando catequese, auxiliando o Pároco nas mais diversas vertentes da sua função e participando mesmo em todos os actos em que ele, como Sacerdote, de ajuda precisa e que eles, sendo-lhes tal permitido, podem fazer: dar a comunhão na Missa e aos doentes e todos os actos religiosos que não sejam de exclusiva competência do Pároco enquanto Sacerdote.

Não sei se bem defini mas é isto que sobra da minha observação das pessoas da Família que o foram, caso do meu Pai, e o são, neste caso a minha Irmã Sameiro, o meu Cunhado Amorim, a minha sobrinha Carina Vassalo Amorim e seu recente marido Francisco Miguel, estes dois integrados mesmo num Movimento, que eu diria de militância mesmo, ligado à Igreja Católica, e que se chama “ LEIGOS para o Desenvolvimento”.

Passado este introito, aquilo que eu pelo presente texto desejo fazer é uma sentida e emotiva homenagem à CARINA e ao FRANCISCO, meus queridos sobrinhos, pelo acto verdadeiramente revolucionário e de grandeza tão indizível que tiveram e estão a levar a efeito: o de terem tudo largado e terem partido para São Tomé e Príncipe para ajudar. AJUDAR, disse eu!

Eles pertencem e estão integrados nesse Movimento ( Leigos para o Desenvolvimento) e, ao contrário de mim e de muitos como eu que têm muito “bla bla” e nada levam à prática, eles foram, eles partiram. E eles partiram abdicando de tudo: da sua comodidade, dos empregos deixados para segundo plano, da calma e pacatez da vida e mesmo de uma Lua de Mel não continuada já que se casaram em Julho deste ano!

Partiram com uma equipa de outros jovens para Sâo Tomé e Príncipe. Para dar e ajudar sem qualquer sentido de troca que não o dos sorrisos do bem fazer. Para viver com eles e como eles, dando-lhes apenas o acréscimo de conhecimento que possuem, ensinando-lhes práticas correctas, de viver, de optimizar, de organização e de apoio, de aconchego e ternura às crianças, de conversa e apaziguamento aos mais crescidos, de conduta, de companheirismo e solidariedade, de organização comercial, de utilização de instrumentos e de conceitos de vida em comunidade que não praticam.

Todo um repositório de Vida! E foram. Ela primeiro e ele depois, tendo deixado para trás uma casa, um Lar acabado de iniciar, a comodidade, os Amidos, a Família, o quotidiano e o bem estar… e por um ano!

Quando a decisão tomada nos transmitiram eu e mais alguns familiares como eu, e à boa maneira da nossa Família onde tudo se discute e toda a liberdade de linguagem é permitida, logo dissemos: “ porra Carina”, “vai-te lixar” e  mais algumas  alarvidades que não queriam mais dizer que a nossa extrema admiração, o nosso indesmentível e orgulhoso apoio e, ao mesmo tempo que elevávamos a sua coragem, admitíamos a nossa pequenez.

E lá estão eles vivendo, reconfortados pela alegria das crianças quando as suas estórias ouvem, pelo sorriso dos adultos quando coisas descobrem e pela satisfação de saberem estar a fazer algo que, sendo aparentemente tão simples, lhes enche o peito e reconforta a alma.

Que coisa, penso eu, vergado à minha incapacidade de ser crente assim e de, mesmo que o fosse, o de levar à prática essa crença. Eu que até frequentei um Seminário de Missionários Espiritanos, que tanto me ensinaram e de quem tanto a gostar e a admirar fiquei, pois me ajudaram a formatar o meu cérebro de Esquerda através dos ensinamentos das suas vidas em prol da Paz, da Igualdade, da Fraternidade, da Cidadania, da Dignidade e da Igualdade. Mas eu não tenho essa força, nunca tive, nem essa decisiva vontade, essa vontade feita de convicção e de chamamento que eles tiveram. Eu só tenho “bla bla”, só escrevo, eles não…

Mas sinto-me orgulhoso e reconfortado com eles e com o seu exemplo. E começo a pensar e acreditar que, tal como diz o PAPA, esta Igreja é Socialista! “ Sou um Socialista e Jesus também o era! Essa é a nossa Doutrina”. Papa Francisco, meu bendito irmão Papa, nada mais verdadeiro!

Pois é Papa Francisco, quem assim se desapega só pode ser progressista. Quem assim se dá, com tanto altruísmo e cedência, é porque acredita num mundo melhor e mais justo. Eu tenho tanto orgulho neles Papa Francisco! Emociona-me esta dádiva e vem-me o choro. Um choro em caudal, naturalmente incontrolável, pela força da admiração e do exemplo e da percepção de que nem tudo está perdido, que melhor mundo virá se exemplos como estes se multiplicarem e  se cada um, dando sentido à vida, algo fizer.

Mas, tal como noutras situações da vida, tudo isto nos ajuda a relativizar, a ver a vida com outros olhos, uns olhos mais complacentes, mais tolerantes e mais direcionados para aquilo que realmente vale a pena : as Pessoas, o ser Humano e a sua dignificação.

Bravo CARINA VASALO AMORIM, Bravo FRANCISCO MIGUEL. Deste vosso tio, retratando certamente todos os outros tios, com todo o Amor deste Mundo!

“Faz-se o caminho a andar”, não é CARINA?

TESTEMUNHOS

Faz-se caminho ao andar

01-12-2015

Escrito por Carina Amorim

Um caminho que começou quando me senti chamada a servir. Não parti em 2012, mas a vontade de me colocar ao serviço de Deus e dos outros, através dos Leigos para o Desenvolvimento, permaneceu.

Três anos depois, não sou chamada a partir sozinha. Vamos juntos, enquanto casal. Sem saber para onde vamos, nem com quem, sentimo-nos confiados a largar tudo e partir. Naquele momento os nossos planos e projetos (de recém casados) ficaram adiados e a nossa vontade de servir foi mais forte do que tudo o resto que nos prendia naquele que era, até ali, o nosso lugar. O nosso lugar passou então a ser este onde todos os dias nos são lançados novos desafios.

 

Todos os dias agradeço a graça de ter sido escolhida e de tentar ser “semeadora de desenvolvimento” neste lugar tão característico da cidade de São Tomé, o Bairro da Boa Morte. Sinto-me missionária quando saio da nossa casa no Bairro Madredeus e caminho até ao Bairro da Boa Morte, ao encontro das pessoas, muitas vezes só para dizer e ouvir um “Olá”, um “Bom dia” ou um “Oi, tudo bem?”. E fico ali a escutar as suas histórias e o valor que estas têm sente-se no olhar vivo e expressivo com que me falam e tocam o coração.

 

 

O lixo que se acumula diariamente, a falta de água potável e de condições de vida, contrastam com a beleza das paisagens, a intensidade das cores e cheiros que se misturam e me fazem muitas vezes “esquecer” por momentos a dura realidade em que vivem. São inúmeros os problemas destas pessoas que diariamente lutam no seu jeito “leve-leve”, que inicialmente até podemos estranhar, mas pelo qual rapidamente nos deixamos encantar. São pessoas que não se deixam abater pela tristeza e contrariedades e a sua alegria e forma desprendida como vivem, chega a ser desconcertante.

 

Neste Bairro, onde já me vou sentindo em casa, há um grande número de pessoas que comercializa produtos em quitandas/quiosques e vendas ambulantes. Um dos nossos projetos de trabalho no bairro passa por impulsionar e desenvolver os seus negócios. Fazê-los sentir que são capazes, que têm valor e ajudá-los a ser autónomos. Agora, devidamente sinalizados, fruto do trabalho de diagnóstico realizado, no ano passado, os vários comerciantes foram convocados para uma reunião. Excedendo as nossas expectativas, faltaram cadeiras para acolher as pessoas que se mostraram interessadas e com vontade de desenvolver os seus pequenos negócios. Conscientes dos seus problemas, elas próprias sentem que se deve criar uma dinâmica de interajuda e cooperação entre si.

 

 

Sinto que há vontade de fazer caminho. E que mais do que nunca, este caminho se faz andando.

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