A ESTABILIDADE

Eu, como aqui já disse, tenho sempre textos escritos sobre a actualidade ou coisas mais, e que poderia ter publicado, mas, porque entendo terem perdido protagonismo e premência ou porque outros de maneira mais assertiva sobre isso já escreveram, vou deixando para trás. Assim se passou com este, já escrito há mais de um mês. Por esse motivo há referências que já não constam da actualidade mas, na sua essência, não só o tema se mantém na ordem do dia como se reveste, para mim, da maior acuidade.
Isto para dizer que, deixando esses outros para outras núpcias, me fixei neste acima porque, acicatado por uma deixa captada numa recente “Quadratura do Círculo”, não podia deixar de o considerar o tema de maior importância actual. E vou tentar explicar porquê.

Nessa mesma “Quadratura do Círculo”, a páginas tantas, alguém disse uma coisa óbvia: Se as taxas de juros, em qualquer das maturidades, apresentam uma tendência de contínua descida, depois de antes terem subido, ou se mantêm estáveis, é porque, apesar dos esforços múltiplos encetados por alguma imprensa, comentadores e membros da oposição, se manifesta uma ESTABILIDADE cada vez mais saliente. Primeiramente o reconheceu a Moody´s por ter sido possível aprovar um Orçamento com o apoio de forças políticas díspares. Mesmo depois a própria Comissão Europeia, numa atribulada prestação do seu Comissário para a Finanças, que se rendeu à evidência e o tomou, finalmente, por bom. Em segundo lugar porque não se detetam divergências de realce entre as forças políticas que suportam esta maioria e, finalmente, porque mesmo a CGTP, tendo realizado o seu Congresso, este mesmo passou despercebido, não veio agitar as águas e, antes pelo contrário, até manifestou uma atitude que, sem deixar de ter uma matriz reivindicativa, não traçou quaisquer linhas vermelhas. E Jerónimo de Sousa, numa entrevista à SIC, disse o mais importante: Porque temos esta postura e aprovamos este Orçamento? Imaginem o que seria estar a discutir um proposto pela PAF?

E, já agora e por isso, muito me apetecendo dissertar acerca da indecorosa política Brasileira, do complexo assunto do terrorismo ou das diatribes saudosistas e tácticas do líder da oposição, continuo a eleger este como o mais importante tema.
É que os tempos que correm, os primeiros meses deste Governo e os tempos que se seguirão são tempos muito difíceis, carregados de pedras e obstruções tais que, a não serem tomados a sério pelo Governo e por toda a Esquerda se poderão transformar, para além de uma desilusão imensa, num caminho para anos e anos de ausência de alternativas.

A oposição interna a este governo e a esta maioria parlamentar, que eles continuam a achar espúria, não visa qualquer contributo para a sua melhoria e tem como sentido único o desejo do seu falhanço para que esse mesmo falhanço justifique um próximo “Resgate” e eles, que o provocaram, mas não pediram, apareçam como os seus executores, alheios a qualquer responsabilidade, com todas as consequências que todos poderemos adivinhar.

Isto é tão evidente que, tendo os seus arautos em todos os “Media” falando até à exaustão nas dificuldades deste Orçamento, e nos perigos de incumprimento que ele comporta, Passos Coelho nem se dá ao trabalho de enunciar qualquer proposta alternativa, e instrui os seus para que os mesmos o façam, para que o Governo, a cair, que caia pelo seu próprio pé. É isto que se observa.

Ora, perante esta cínica postura, é de todo o interesse que as forças que apoiam esta mudança de paradigma orçamental disto tenham perfeita consciência e lutem, no imediato, por duas questões essenciais: Uma para que a execução deste Orçamento corra bem nestes próximos meses, e isso passa por não serem mais papistas que o Papa na discussão da especialidade, e a outra é que não exponham uma imagem de falta de coesão nas reformas ou reversões essenciais para que não seja possível a acusação de falta dela , e sim de fraqueza, e seja posta em causa a tal ESTABILIDADE que eu, e muitos, elegem como esse primeiro desígnio.

A ESTABILIDADE, a que poderemos também chamar de normalidade, é de tal importância que não é desprezada por qualquer investidor e, antes pelo contrário, é tida em conta não só por eles como pelos detentores de Dívida, pois demonstra uma credibilidade que advém da confiança que ela inspira. As forças políticas que suportam o Governo de António Costa devem ter isto bem presente, nem que seja apenas até à consolidação da alternativa orçamental apresentada, que só será consubstanciada na sua boa execução pois, ao inverso, concorrerão não só para o desprestígio que inexoravelmente os afectará negativamente em próximo acto eleitoral, como concorrerão para a demonstração, nas circunstâncias de adversidade actuais, de que não são capazes de se unirem numa estratégia comum que se afirme como alternativa à “TINA” ( there is no alternative) dos partidos da ex-PAF. É essencial para a afirmação das Esquerdas como entidades determinantes nos destinos do País e não apenas como meros instrumentos dos legítimos protestos reivindicativos de largas faixas da população.

É que as obrigações que lhes estão implícitas de serem eco dessas justas mudanças sufragadas no Orçamento, que personificam melhorias em geral para a vida das famílias, não poderão nunca colidir com a necessidade de haver contas certas e rigorosas, nem com a obrigatoriedade do cumprimento das nossas obrigações, assumidas pelo Estado, quer se concorde quer não.

Não se trata de perderem a sua matriz ideológica nem de esquecer as diferenças que todos sabemos existirem, mas trata-se de, apesar disso tudo, terem a noção de qual é o objectivo prioritário e nuclear: Conseguirem a tal ESTABILIDADE que, por si só, tudo ratifica.

E, não tenham dúvidas: Para além da obrigação de concorrerem para uma boa execução orçamental e para a ESTABILIDADE desta nova ordem política, deverão ter presente um outro aspecto: É o de que deverão também saber explicar, e bem, a justeza das mudanças introduzidas e dos benefícios, mesmo que não nos patamares desejados, que elas representarão para a maioria das populações para que estas, num próximo acto eleitoral, as possam recompensar.

A ESTABILIDADE, que conduz à previsibilidade e à normalidade, é o que eu desejo e, julgo pensar, as pessoas mais anseiam!

E, voltando ao tempo presente, o Orçamento proposto pelo Governo e aprovado na Assembleia foi hoje mesmo ratificado pelo Presidente da República, numa peculiar comunicação ao País. Peculiar pelo estilo, um estilo que lhe está na pele, também pela forma explicativa como o fez e, finalmente, pela constatação daquilo que o Povo já há tempos vai pressentindo: A ESTABILIDADE! De que, na minha modesta opinião, o Presidente fez eco!

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