OS “ALFAIATES” do PANAMÁ!

Fazem fatos por medida, vestem ricos e poderosos, deles conhecem os cochichos e os segredos e servem empresas sem fim. Os “ Alfaiates”, do Panamá e de todos os Panamás…Como no romance de John Le Carré e sequente filme.

O mundo foi sacudido por uma brutal fuga de informações, que dão conta de um rol imenso de documentos que ligam importantes pessoas do mundo dos poderes, da política, dos negócios e de serviços vários a centenas de milhar de empresas ( já será até difícil encontrar nomes para elas, tantas são… ) que se dedicam a esconder nas suas malhas os dinheiros desses mesmos, todos ricos ou poderosos. Neste caso no Panamá.

“Que las hai, hai…”, dizem os Espanhóis e nós sempre acreditamos que existissem. Esses paraísos fiscais, esses offshores todos, esses lugares sacrossantos e também sabíamos que, existindo eles, era naturalmente porque existia quem deles fizesse uso. Não teria sentido de outra forma.

Mas o problema é que, apesar da sacudidela, o que eu noto é que o espanto não foi assim tão grande e, suspeito eu, a atenção dos “midia” não irá ter como foco o problema em si e todas as suas envolventes, mas irá concentrar-se no “voyerismo” de se saber quem são os nomes envolvidos, e o seu escândalo, e no consequente aproveitamento jornalístico.

E, tendo isso em consideração, as principais perguntas ficarão, como sempre, por se fazer:
– De onde vieram e como foram obtidos esses gordos valores. De onde foram provenientes…
– Como é feito o seu pagamento e como é que ele é transferido…
– Como são controladas as contas dessas empresas ou as entidades donde o dinheiro provém…

Mas, para além destas singelas perguntas, que deveriam atrapalhar, mas não atrapalham, todas as entidades reguladoras, há uma triste realidade que ganha forma: a de percebermos a razão por que ninguém quer acabar com ao paraísos fiscais e os offshores. E a de constatarmos que, ao contrário do que deveria ser, se legisle para os manter sob a capa da legalidade e se mantenham benefícios fiscais para toda essa minoria.

Eu tenho para mim que tudo isto consubstancia um grotesco bonús que quem realmente governa o mundo- o sistema financeiro global- oferece aos seus lacaios e a outros circunstanciais beneficiários ( as fortunas de alguns jogadores de futebol, agentes, artistas de cinema etc..). Assim como um privado túnel, uma fenda própria, uma janela escondida por onde eles levam e lavam e se livram de pagar impostos.

Num interessante e elucidativo comentário no Facebook a FILIPA VALA, uma jovem e lúcida investigadora da Faculdade de Ciências de Lisboa, pessoa que pessoalmente não conheço mas sigo como amiga virtual, diz a todo o propósito: Nem toda a informação revelada pelos “ Panama Papers” é ilegal e o problema é esse mesmo.
E reproduzo: “ Uma parte do que está a ser revelado estará ligado a acções criminosas ( corrupção, enriquecimento ilícito, negócios ilegais etc.) e cabe à justiça mover processos e efectuar julgamentos…mas a outra parte resulta da legalidade e corresponde a mecanismos de evasão fiscal, aprovados por uma classe política conivente com eles…”.

Esta é a parte que lesa os países e as suas populações que se vêm privados de montantes que são de todos ( impostos), e são necessários para o seu investimento e desenvolvimento. É nesta parte que a lei protege um diminuto número de cidadãos, os mais ricos e poderosos, concedendo-lhes privilégios de evasão que são inalcançáveis pela grande maioria dos contribuintes.

Ora é esta parte que deveria interessar vivamente à opinião pública. A de com estas informações disponíveis pressionarem a classe política a mudar a lei. E será fomentando este debate que se verá quem defende verdadeiramente os interesses da maioria e quem defende os de alguns apenas.

O debate urgente é, portanto, o político. O da justiça virá por inerência.

Sem isso não deixaremos de ouvir o costumeiro desabafo de alguns que governando não governam: se taxarmos as fortunas o seu dinheiro vai-se, dizem. E indo-se teremos que lhes conceder benefícios para que volte…

Estamos fartos de ouvir, não estamos? Mas já alguém lhes perguntou: E quem o deixa sair?

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