O SENHOR BRUCE, BRUCE SPRINGSTEEN.

“Crónica de um Padre na grande Missa do Rock´n´Roll, com o oficiante Bruce no altar”. É o título de uma crónica que o Padre José Tolentino de Mendonça, fã incondicional do “The Boss”, escreveu no Expresso, e que eu infelizmente não li por estar zangado com o referido jornal, depois de o ter ido ver, como eu e muitos milhares, ao Parque da Bela Vista e em que o define como “um cowboy do asfalto e um profeta bíblico”.

Ora eu, que muito respeito o Homem, o Padre e o Intelectual que José Tolentino de Mendonça é, que não li a sua crónica pelas razões acima aduzidas, corroboro a sua proposição e confesso lá ter ido por razões idênticas: também eu fui a uma “Missa”, no sentido a que fui a uma celebração! Mas não fui celebrar um “profeta”, mas sim um Homem do seu e do meu tempo: um Homem íntegro e sólido; humano e honesto; aberto e actuante; presente e inconformado, um génio! Profeta? Até poderá ser mas, para mim, a palavra que melhor o poderá definir em todas as suas dimensões e que conjuga todas as razões porque tanta gente o adore, é a palavra RESPEITO!

Eu não fui ao Rock in Rio, eu fui ver o Bruce, fui celebrar o Bruce e dizer-lhe, muito simplesmente, OBRIGADO! Eu fui a uma celebração e não fui pular nem gritar, tal como a grande maioria dos idosos, pessoas de meia idade, jovens e crianças que também lá foram, e isso era notório nos seus rostos encantados, sorridentes de tanta satisfação, rendidos à sua energia fora do normal e emocionados por tanta dávida e por tanto respeito pelo “Boss” demonstrados. Todos estávamos irmanados num mesmo sentimento: o de celebração, de gratidão e de reconhecimento.

O reconhecimento a num Homem diferente e único, o autêntico diapasão da América e, depois que Pete Seeger se foi, também o seu sucessor como consciência da mesma América. Um ser normal na aparência, mas com uma transcendência que ultrapassa essa normalidade. É que ele, homem respeitador e respeitado, homem inteiro e íntegro, ele incorpora em si tudo, mas mesmo tudo, o que deve ser um homem público, um actor, um músico, um performer e tudo o resto na sociedade moderna em que está integrado. O de ser o repositório dos seus anseios, das suas lutas, dos seus problemas reais, a sua fortaleza sempre presente e disponível, o poeta das suas amarguras, do seu sofrimento, da sua exclusão e também dos seus sonhos e amores, dos jovens e dos mais velhos, de todos, de todos os que batalham para sobreviver…

Ora esse RESPEITO, para além das suas músicas a que ele dá uma interpretação de vigor e lirismo inolvidáveis , advém desde logo da sua presença e da sua atitude. Da maneira como se comporta em palco, dando tudo se si, nunca defraudando, cantando sempre algo que o público deseja ouvir, com uma entrega que espanta e com um profissionalismo que nos deixa boquiabertos. Ele é o “Boss” e não transige. Nunca facilita e, sejam duas ou três horas de espectáculo, a sua entrega e busca da perfeição é sempre a mesma. E o público sente todo aquele vigor e energia, uma energia contagiante e incrível num homem com já 66 anos.

E é bonito e até enternecedor ver e sentir o respeito que o público por si nutre. Ele entrega-se ao público, vai para junto dele, aproxima-se mesmo e deixa tocar-se. Mas é impressionante a reacção do público: quer tocá-lo mas tem temor; estende as mãos mas não força tocá-lo; há ali qualquer sentimento de uma contenção induzida que impede a mão de ir mais além e há um êxtase de mãos estendidas que mesmo quando o tocam o fazem com recato, suavidade e leveza.

As mulheres essencialmente, mais novas ou mais velhas, ficam assim como que em transe quando a figura lhes aparece ali à sua frente, a centímetros dos seus dedos, a saudá-las sempre de microfone na mão e não deixando de cantar. Sentem-se encantadas e ficam como paralisadas e enfeitiçadas, com as suas mãos para a frente, junto ao seu corpo mas com pudor de lhe tocar. Ele toca-lhes as mãos e os seus rostos passam a mostrar um inebriamento que só se desfaz quando ele segue em frente ou muda de lado, onde tudo se repete…

É impressionante o respeito. Eu já vi até, no Youtube claro, o Bruce deixar-se cair sobre o público e não são as mãos das pessoas que o sustentam: são os seus dedos, dedos às centenas que o seu corpo suportam, como que indicando que não ousam colocar a mão, não ousam profanar a sua entrega. E exercem com elevação o seu RESPEITO! Ele interage com o público e nunca fraqueja. E o público reconhece-o.

O Bruce é tudo isso: entrega e dádiva. Respeito e atitude. Ele percebe o mundo que o rodeia e fala do Homem comum, dos “ no home, no job, no peace, no rest…”( dos sem casa, sem trabalho, sem paz e sem sossego…). É um vencedor que fala dos “loosers”. Ele vive os problemas reais do seu povo, está atento ao mundo, é um pacifista atento e solidário e sofre e preocupa-o a distância entre o sonho e a realidade. Mas é genuíno e, na senda do seu grande inspirador, WOODY GUTHRIE, por cujo percurso e obra é obcecado, nunca deixa de falar dos direitos cívicos, das minorias, da decência, do direito a casas decentes e a uma vida decente para todos.

A sua música é límpida e cristalina, tal como o som dedicado pelos músicos da sua E. STREET BAND que conseguem com a sua afinação e clareza reduzir um grande estádio a uma pequena sala. Os seus músicos são parte integrante da sua família (a sua esposa PATI SCHIALFA toca com ele-desta vez não tocou pois, quando vem a Lisboa, traz os filhos e restante Família e vão passear e disfrutar Lisboa), têm toda a sua confiança e lá permanecem anos e anos. A sua homenagem aos músicos já desaparecidos que com ele tocaram foi comovente e mais uma prova da sua beleza. Eles pertencem a uma família pois fazem parte da sua vida. Têm um patrão, mas para além de amigos são cúmplices e também protagonistas. Em todos os concertos os membros da banda vão, um a um, com o Bruce para a boca da cena e percorrem todo aquele espaço por entre o público que ele sempre tem. Ele é único e insubstituível, como a sua música e o seu som.

“ THE RIVER” , “ BORN IN USA” e “NEBRASKA” , serão talvez os álbuns mais emblemáticos da sua obra. Mas eu elejo como a sua mais grandiosa e conseguida obra o álbum e a digressão que fez em 2006 em homenagem ao ainda vivo PETE SEEGER: “THE SEEGER SESSIONS”, todo ele baseado em canções de fundo folk celebrizadas por Pete, a maior parte delas canções de luta e protesto. Para isso ele juntou, incluindo alguns seus músicos, dezoito músicos do melhor que na América havia e formou a “THE SEEGER SESSIONS BAND”. O resultado foi um disco de uma qualidade assombrosa e espectáculos, apesar de mais intimistas, de uma qualidade musical nunca vista e que eu ouço e volto a ouvir e a ouvir…

Eu não me canso de o ouvir e fez-me bem ir à “Missa”. E mais tarde poderei dizer aos meus netos: eu vi o Bruce, eu vi o “BOSS”e ensinar-lhes quem era o BRUCE! E valeu a pena, pois fiquei mais vivo!

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