“GO TO HELL” Mr. TRUMP!

Sim, vai para o inferno, ou o que isso possa significar. Vai, vai e não voltes mais…

Eu não vou ver o debate de mais logo, de madrugada mesmo, não pela hora em que vai ocorrer, porque uma vez não são vezes e o fim de semana foi de relativo descanso mas, do mesmo modo que, enquanto as TV´s transmitem aqueles intermináveis debates sobre futebol, de que eu continuo a gostar mas só mesmo do jogo em si, eu estou no computador escrevendo estas palavras, porque não sou “voyer” ou coisa do género, não me interessa nada a disputa que vai ter lugar e que eu presumo que de edificante nada vai ter…

Primeiramente porque, mesmo que não me seja indiferente quem vá ganhar, eu não gosto da candidata Hillary Clinton, que entendo ser um retrocesso em relação a Obama e em segundo lugar o outro…nem sei como o definir. O Robert De Niro esgotou todos os adjectivos para o qualificar e eu só poderei acrescentar um : asco!

Mas o que me compete dizer, como já afirmou muita gente Americana relevante e mundialmente conhecida, desde o já referido Robert De Niro a Bruce Springsteen e muitos outros, Trump é um embaraço para a América e para os Americanos de bem e que, como eu e muita gente, se pergunta: como é que isto é possível?

Eu desde sempre vi a América (EUA) desde dois polos diferentes: por um lado um país virado para o futuro, inovador e empreendedor, com elites sempre à frente dos tempos e um país com uma energia deveras vibrante mas, por outro lado, um país desigual e misógino, com tiques de imperialismo e com uma soberba de poder tal que o leva a sentir-se dono do mundo.

Mas, ao mesmo tempo, sendo um país com todas estas contradições, também foi sempre um país pioneiro na luta pelas liberdades, onde elas foram sempre reclamadas, onde a igualdade de género e de raça sempre foram objecto de lutas e onde afirmação da diferença sempre foi um facto. Desde as antanhas lutas de Chicago pelo horário de trabalho ( May Day), pelo direito ao voto das mulheres, aos movimentos dos anos 60 pela paz (Flower Power), dos negros contra a segregação racial, de que Rosa Parks foi o primeiro símbolo e Matin Luther King o mártir, das lutas pelos direitos sociais e o país onde nasceram todos os movimentos, sindicais e outros, que deram corpo a direitos que hoje são inquestionáveis. Ou ainda são…

E lá nasceram e viveram muitos dos meus ídolos de juventude, uns já desaparecidos e outros felizmente ainda vivos, desde a Música, às Artes, ao Desporto, à Literatura ou mesmo à Política. Mas não só de juventude porque todos eles, vivos ou desaparecidos, continuam vivos no meu imaginário…

E na Música não só como Arte mas também como meio de intervenção, por exemplo, estão muitos dos que ainda permanecem como minhas referências na vida. Desde Paul Robeson a Woody Guthrie, de Pete Seeger a Bob Dylan, de Phill Ochs a Neil Young, de Paul Simon a Bruce Springsteen…para não falar da grande música negra, dos Blues ao Jazz e dos monstros sagrados que lhe deram o fulgor e admiração globais, vindos dos ghettos e da segregação racial. A minha admiração é imensa por toda essa gente e também por todos os que sempre remaram contra a maré, onde todos os referidos se incluem.

Também referi as Artes, o Desporto e a Literatura e aqui abro um parêntesis para referir um escritor que, na minha juventude, muito me marcou e ajudou a construir o meu lado na vida: John Steinbeck, nomeadamente, para além do “ A um Deus Desconhecido” que todos os jovens liam e os mais velhos diziam ser perigoso, o seu romance “ As Vinhas da Ira”.

Mas também na Política, eu que já sou dos tempos controversos do Kennedy- lembro-me que estava sentado num muro da Escola, em Esposende, quando alguém me disse que ele tinha sido assassinado- e por causa da Política zanguei-me com a América. Primeiro nos tempos do Nixon, “sanguinolento Nixon” como o definiu Pablo Neruda, e da guerra do Vietnam. Reconciliei-me mais tarde com Clinton e zanguei-me novamente, e pensava que definitivamente, com Busch. Mas, finalmente, voltei a reconciliar-me com os OBAMA, o Obama casal, que eu, pesem embora também todas as contradições que advêm do facto de se tratar de uma superpotência com interesses globais, eu considero o melhor, o mais capacitado, o mais íntegro, o mais preparado e o mais “cool” casal que, desde sempre, habitou a Casa Branca!

Mas chegamos a este ponto. E chegamos a este ponto porque o mundo tem vindo a descair, desde há vários anos, para esta situação. E são as desigualdades crescentes que aos governantes não fazem confusão. O empobrecimento generalizado que ninguém comove. A concentração da riqueza que ninguém incomoda. A perda progressiva de valores sociais e morais que muito poucos lembram. A paz que ninguém procura. Os refugiados abandonados à sua sorte. Os que ficam com as suas casas destruídas por bombas cruzadas e as ruínas como futuro para além da própria morte. E a naturalidade com que se assiste à tomada de poder pelos mais fortes, os que são “winners” seja de que maneira for, e ao modo como todos os outros, os “loosers”, ficam para trás…

A naturalidade com que os mais fortes fogem aos impostos e transfugiam o seu dinheiro para depois, para o mesmo voltar, verem os respectivos impostos serem quase isentados, tudo isto perante a inoperância de seja quem for que governo e que, exangue desses impostos, fazem recair sobre as depauperadas classes médias os impostos que necessitam para manter os seus países no fio da navalha.

A solidariedade tornou-se numa palavra vã e o egoísmo e o chauvinismo tomaram conta das sociedades mais fortes. Que não querem misturas e constroem muros. Bruce Springsteen, na sua autobiografia “ Born to Run” que eu estou a ler, lembra que a América foi “semeada” por emigrantes, e ele próprio é oriundo de Irlandeses e Italianos. Para além dos escravos pretos, vindos de África, acrescento eu. Como esquecer isso, pergunta ele, quando vê os muros já erguidos e outros a quererem erguer-se na fronteira com o México, por exemplo?

Trump, no seu asco, gaba-se da sua “esperteza” de não pagar impostos e actuar como um “outlaw”  e induz muita gente a querer ser como ele : esperta, corrupta, aldabrona e vencer a qualquer custo.  Nem que seja à custa do seu vizinho, do seu amigo ou mesmo do seu familiar, pouco importa. Os fins justificam os meios e que é preciso é vencer…

É nisto que, infelizmente, estamos e tudo isto me deprime. Como deprime tantos Americanos de bem impotentes e envergonhados perante este cenário.

Mas isto pode mudar? Mudar até pode. O problema é que a História desde há muito nos ensina que o mundo só consegue reerguer-se depois de ficar em ruínas…Depois de tudo desfeito aparecerá sempre alguém com um plano Marchall qualquer para “ajudar” a reconstruir…

E é isto que eu detesto neste mundo, em nome dos meus filhos, dos meus netos e de todos os que foram educados nos princípios da decência, do humanismo, da verticalidade, da igualdade, da compaixão e da magnanimidade.

Será tudo isto suficiente para sobreviver neste mundo de “ trampa”?

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