DANIEL, o “PENSADOR”

Não, não vou escrever acerca de nenhum “Rapper”. Vou escrever mesmo sobre o Daniel Oliveira, um jornalista (assim se intitula, pelo menos no Facebook e do qual sou seguidor), e acerca de uma pequena polémica que com ele ontem tive, nesse mesmo espaço e ainda a propósito de Fidel e de Cuba.

Muitos terão lido esse seu texto em que ele começa a justificar por que o escreve : “ para que não haja alguma confusão sobre a minha posição sobre Fidel Castro..” e, por isso, transcreve dois textos de 2005, aquando de uma sua estadia em Cuba, ainda sobre o domínio de Fidel.

No primeiro texto começa por enumerar as três grandes Vitórias da Revolução Cubana: a EDUCAÇÃO, a SAÚDE e o DESPORTO. Depois os três grandes fracassos: a Pequeno Almoço, o Almoço e o Jantar. E acrescenta que os Cubanos são educados e saudáveis, mas estão condenados à miséria e à frustração. Palavras dele. E acrescenta: sitiados em sua própria ilha e massacrados com propaganda e vivendo de mentiras…e assim o regime está em ruinas e que todas as esperanças dos Cubanos foram desfeitas por um Homem, que tendo o Povo com ele, pronto para tudo, preferiu a solidão dos tiranos…Tudo isto palavras dele!

No segundo texto fala das trinta mulheres de branco que desfilaram em Havana, critica veementemente Gabriel Garcia Marquez e Luis Sepulveda por condescenderam com esse “tirano” mas, acerca disto, nem me vou ater…Mas foi isto que ele foi recuperar, de há onze anos atrás para sustentar o seu (legítimo, não discuto) anti Castrismo.

Eu, perante o que li e vendo a sua preocupação no entendimento dos outros, sem confusões, sobre aquilo que pensa, aquela preocupação que ele manifesta em qualquer intervenção que faz e que é a de que “eu até concordo, mas…”, sendo que este “mas”, refúgio ou boia de qualquer politicamente correcto, observando aqui insanáveis contradições, teci um comentário em que digo, depois de reconhecer que sempre o ouvi e li, desde os tempos do Barnabé…”…Não é este o mesmo Daniel que se “gabou” na TV de ter saído do PC oito dias antes da queda do muro de Berlim? Premonição? Oportunidade? Não é este mesmo Daniel que foi para o Bloco e tempos depois também saiu tendo, mais tarde ainda, ido para o Livre?..mas reconhecer a sua habilidade para escrever e a sua fácil retórica não é o mesmo que lhe reconhecer autonomia e constância doutrinária ou de pensamento e, por isso, ter achado o seu texto “lamentável”. E terminei dizendo:” O Daniel treme de frio entre as ondas…avança ou recua? Como fica depois? Depois fica no meio das águas e ficará de mão no ar à espera de uma boia salvadora…e aconselhei-o, com toda a franqueza, a ter mais decência…”.

O Daniel Oliveira respondeu-me e disse-me: “O Daniel pensa! E isso provoca algum avanço e recuo, angústia, dúvida e hesitação” e aqui eu não posso deixar de louvar a sua sinceridade. Mas acrescenta: “Quanto ao resto medirá os outros pela sua bitola se acha que cada mudança se faz por oportunismo. Decência é dizer o que se pensa, indecência é trocar a discordância política pela avaliação de carácter. Una escola antiga com resultados trágicos”. Acabou ele assim.

Eu ainda respondi: “De facto, para si eu não penso! Logo, só você existe! Está bem, mas não basta pensar: também é preciso estudar. Já agora a História de Cuba, não lhe fazia nada mal e, não bastando pensar, talvez ficasse mais esclarecido”. Acabou assim a nossa troca de “mimos”…

Ora, se tais textos tivessem sido escritos por um qualquer, eu passava os olhos e seguia em frente, como fiz com o do Pedro Marques Lopes (o último Eixo do Mal não vi) e com tantos e tantos outros comentários, depoimentos e observações com quem, de todo, não concordava. Mas não me atrevi, nem atrevo, a dizer que “eles não pensam”! Agora do Daniel Oliveira isso custa-me aceitar e custa-me aceitar, de si, opinião tão redutora. E mais me custa por sentir tal me soar à exposição de um pensamento quase “obrigatório”, politicamente correcto, como disse, e com aquela duplicidade de quem toma partido sem partido tomar e com a sequentes contradições.

A primeira, e insanável, é aquela em que ele enumera as vitórias da Revolução Cubana ( a Saúde, a Educação e o Desporto) e os seus fracassos ( o Pequeno Almoço, o Almoço e o Jantar). Eu não posso conceber que pessoas como o Daniel Oliveira, que ainda por cima diz “Pensar”, afirme uma coisa destas, tanta incompatibilidade entre elas existe. A uma Educação, Saúde e Desporto massificados ele opõe a falta de alimentação? Dito por qualquer personagem ou analista retrógrado e com a cabeça tolhida por teias de aranha, eu ainda concedia e seguia em frente. Agora, pelo Daniel Oliveira?

Eu não sei se ele já leu (deve ter lido) “ Las Vienas Abiertas de Latinoamerica” de Eduardo Galeano ou algo sobre a história de Marti, das mil e uma revoluções Cubanas pela sua independência face aos espanhóis, depois americanos, depois espanhóis e a última contra um fantoche que fez de Cuba uma colónia americana, o seu prostíbulo, o seu casino, o paraíso para todas as máfias, um déspota, esse sim, completamente alheado do seu Povo, um Povo com índices baixíssimos de literacia e saúde, uma colónia da qual os americanos de tudo eram donos…

O Daniel, e aqui eu faço o gosto de lhe conceder aquilo que reclama ser, de “ Pensador”, pensa e eu, qual Descartes, concluo “logo existe”! Eu que, para ele, não penso, uma prerrogativa só ao alcance de alguns iluminados ou com artes de magia, logo “Não Existo”…Mas, adiante.

Quando eu, perante as suas constantes mutações ideológicas e partidárias, o alertei para a “decência” (palavra forte, sem dúvida, e que, admito, não deveria ter usado), não o fiz para o chamar de “indecente”, nem coisa que o valha (de outro modo nem o lia nem o ouvia), mas para o facto de que, quem tem pensamento, quem tem tribuna, quem tem ouvintes, quem escreve e é lido, e eu sou um deles, não pode fazer juízos tão primários de coisas mais complexas e que, apesar do pensamento, remetem também para algum desconhecimento ou, quiçá, em alguns casos, que não o do Daniel, para algum reacionarismo…

Eu, pela minha parte, pesem todas as contradições e mesmo o ultrapassar de alguns limites que para nós, Europeus, são de difícil aceitabilidade, eu não me esqueço do que era Cuba e do que é Cuba. Uma Cuba que, apesar dos seus habitantes viverem na “fome” e na “miséria”, e esta é uma das razões principais deste texto, apresenta patamares de desenvolvimento humano que deveriam fazer corar de vergonha muitos países ditos poderosos e também cheios de contradições…como o seu vizinho de lado!

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