QUANTO MELHOR…MELHOR!

Apesar do referendo em Itália ( eu sou contra os referendos, como sou contra todas as dicotomias, o Sim ou Não etc…, como sou contra todos os plebiscitos, como na Áustria, onde aparece um tipo da Extrema Direita, como se representasse toda a Direita e todos os moderados e do outro lado um Verde que representa toda a esquerda e também muitos moderados), eu elejo esta frase como a frase deste fim de semana!

É que  tudo é muito redutor e eu não me revejo nessa simplificação, parecendo que é uma simples escolha entre o Bom e o Mau, o Bonito e o Feio ou o Rico e o Pobre! Não, não me revejo, tal como nunca me revia no “quanto pio.melhor” que, durante muito tempo perpassou por uma certa esquerda, mesmo a Comunista e em quem eu muitas e muitas vezes votei, e votei como último refúgio da minha consciência, por não sentir que, do outro lado, alguma coisa de justo e coerente viesse. E, dizia eu, ficava com as mãos limpas, para não ter sobressaltos de consciência. Por isso, por exemplo, para desespero de muitos Familiares, nunca votei em Sócrates!

Mas as coisas mudam! E esta tua frase dita acho que ontem no Congresso do Partido tocou-me,e ficou-me de tal modo arreigada ao que eu penso, que me lembrei deste texto que te dediquei há precisamente um ano e a chamei: ” OBRIGADO JERÓNIMO”!

Eu não me acho nenhum prestidigitador, mas acho que adivinhei bem o teu pensamento e tu, se o tivesses lido, terias compreendido a razão por que, desta vez, mudei o meu voto! É que eu já estava farto do ” quanto pior melhor” e tu, agora, sem me quereres agradar, é claro, viste dar-me razão! E intuíste, de forma brilhante, o que todo o teu eleitorado desejava e também a razão pela qual algum eleitorado, como eu, na CDU não votou.

Mas eu, em 26 de Novembro de 2015, há cerca de um ano, portanto, dediquei-te este texto, texto que, depois deste “Quanto Melhor…Melhor”, reiterando a minha não especialidade de prestidigitador, eu penso que tem uma actualidade inquestionável e de que tenho orgulho de ter escrito. Chama-se, como já disse: ” OBRIGADO JERÓNIMO”!. Aqui vai…

Agora que o governo está indigitado ( indicado, disse o tal) e sendo eu suspeito de este título aqui apor, não é difícil aferir da sua justeza dado o teu inestimável contributo para tal.

Porque, na verdade, eu quero reafirmar aqui aquilo que já muitas vezes disse: ligam-me ao PCP e à CDU grandes laços de afectividade porque, exceptuando uma vez, mais esta última, sempre neles votei. Nesta vez votei no António Costa. Aliás inscrevi-me mesmo nas Primárias do PS para ajudar à sua eleição.

Tenho este “pecado” meu caro Jerónimo mas, sabes, eu não me arrependo de o ter cometido. Em 29-03-14 eu escrevi neste mesmo sítio um texto intitulado “Jerónimo um Homem cativante” em que, a certa altura, eu dizia que, muito embora na vida possamos mudar a nossa orientação de voto, e por uma vez o tivesse já feito “ não me custaria votar em António Costa”, mas onde também referia que “ a gradação da convicção em cada um destes ( líderes, bem entendido) é variável e depende também da análise do momento”. E digo nesse texto também que tu fazias a diferença e eras um Homem em quem eu me revia em toda a plenitude porque me oferecias aquele diferencial de confiança que eu não conseguia obter, na totalidade, em mais nenhum outro.

Mas tu, e com toda a legitimidade, perguntar-me-ás: pois se assim é, então isso não seria suficiente para continuares a votar em nós em vez de teres votado no PS? Eu respondo: Não! E porquê? Porque, como uso muito dizer, os tempos são os tempos e cada tempo tem as suas particularidades e estas podem influenciar o nosso pensamento. E foi o caso. E quais são então essas particularidades? Em primeiro lugar a chegada de Costa à liderança do PS, também por mim patrocinada, é um facto relevante porque é um político em quem eu particularmente confio. Porque tem demonstrado ao longo da sua vida ser um Homem sério e recto e uma pessoa capaz de estabelecer pontes e acordos. Em segundo lugar, sendo necessário haver sempre um Poder, ser o político aberto e certo para esse Poder ocupar.

Claro que é por demais evidente que sem estes quatro catastróficos anos de deriva ultraliberal e direitista, com o alheamento de quem mais sofre e é mais frágil e com a ausência de qualquer sentido de justiça, a questão mais facilitada ficou. E eu, como muitíssimos como eu, já cansados de votar sempre em que só ( e bem, é claro ) protestava, era o tempo certo de obstar a que essa direita retrógrada continuasse no poder. E só havia uma maneira de o concretizar: Votar no PS de António Costa. E assim fiz e fizemos e, digo-te, bem. E é preciso ainda acrescentar e dizer-te que nos veio à lembrança a maneira como essa direita chegou ao poder quando tu, errada e lastimosamente, votaste com essa mesma direita o chumbo do PEC 4, que a catapultou a esse poder e com ele fez o que fez. E na hora do voto é claro que esse pequeno grande pormenor não foi esquecido e esse facto me e nos assaltou.

Mas, ainda não sei bem porquê, se por remorsos dessa atitude, se pelo efeito Costa, se pela votação sucedida, se por teres sentido a premência do momento, se por intuíres o pensamento de pessoas como eu e muitas outras, ou se tudo isso junto mais o facto de ser primordial afastar esta direita do poder, tu decidiste surpreender-nos e concretizares o mais revolucionário acto da tua vida quando disseste alto e bom som: o PS só não formará governo se não quiser! E tudo mudou!

Tudo mudou meu caro Jerónimo e tu tinhas acabado de fazer História! É que não podemos estar eternamente dentro do sistema e ao mesmo tempo fora dele. Nós íamos aguentando, mas já nos custava compreender.

O teu acto não foi qualquer cedência: foi um acto revolucionário, como já disse. Muitos, diria mesmo quase todos nós, o ansiávamos, mas não o esperávamos. E eu também não! Mas tu soubeste ler o momento como ninguém. Eu sorri e todos sorrimos de satisfação, mas, na verdade, foi visível em toda a gente uma enorme estupefacção. Tu és experiente e conhecedor e soubeste sentir em toda a nossa euforia um sentimento de quase libertação, aquele “ até que enfim”, como se algo estivesse entalado em nossas gargantas. Eu fiquei com ainda maior orgulho em ti e redobraste o respeito que por ti eu e todos já sentíamos.

Não te arrependas Jerónimo e diz lá aos teus camaradas do Comité Central e demais organizações que não tenham medo de, por este compromisso assinado, votos virem a perder. Antes pelo contrário! Muitos voltarão novamente a votar na CDU porque o tempo de agora já não é o tempo de ontem. Agora é tempo de futuro e é um tempo de futuro melhor para os Portugueses e, para esse novo tempo, o teu contributo foi fundamental. Digamos que tu foste o desbloqueador! Mas vais ter que segurar esse teu Povo!

Pensar só tacticamente no imediato, como aliás todos fazem, e no que poderá suceder se algo de imprevisto houver, não é o importante. O importante é fazer aquilo que se exige: um governo de Esquerda, unido no essencial, naquilo em que eu num meu outro texto apelidava de “ O Governo das Reposições”, um governo que devolva a esperança aos Portugueses mas que saiba e aceite que não é possível de imediato tudo fazer e que terá sobressaltos no caminho. Certamente que os haverá e a última coisa que eu e muitos como eu aceitaríamos ver era tu e a Catarina Martins desatarem a olhar para a árvore e não para a floresta e se aterem a coisas que, no momento, são insolúveis em troca daquilo que é urgente: a reposição daquilo que a muitos foi subtraído.

Não tenhas receios nem medos. O teu eleitorado sabe de tudo isso e saberá valorizar o teu esforço e visão. Não pretendas obter o óptimo quando só suficiente pode ser alcançável. Nós sabemos Jerónimo, todos nós o sabemos. O tempo de agora já não é o tempo de ontem. Hoje é o tempo do futuro, um tempo de um futuro melhor para todos os Portugueses. Fixa isto.

O Comité Central a essa conclusão também unanimemente chegou e chama-se a isso pragmatismo e, havendo já o desejado governo PS, muito a ti o devemos. A malta não se esquece Jerónimo e diz lá aos camaradas do Comité Central e das restantes organizações do Partido que nós saberemos honrar o teu gesto revolucionário. É que não se trata de nenhum “aggiornamento”, não se trata de abdicar dos princípios que são a trave mestra do Partido: trata-se de, neste tempo premente e preciso, fazer o que se tem que fazer e fazer o que tem que ser feito. Não entrar no governo eu até aceito que não faças porque para além de parecer um frentismo, que em definitivo não o é, também poderia dar de imediato aso ao ditote: olhem-me estes também…afinal todos querem o mesmo, o poleiro!

Mas quero aqui afirmar-te também, meu caro Jerónimo, do quanto eu e muitos como eu apreciamos o quanto tens feito pelo Partido. Pela revolução tranquila que tens levado a cabo e pelo respeito que trouxeste ao Partido. Tu tornaste o Partido respeitado. Um partido olhado como decidido mas responsável. Integrado, aceite e confiável. Admirado na sua coerência diferenciadora porque integrado e admirado pela sua palavra. Soubeste ler os tempos e isso eu e muitos como eu te agradecemos.

Mas não só! É que tu conseguiste renovar o Partido e apresentar, por exemplo, um Grupo Parlamentar que é um orgulho. Composto por jovens valorosos e preparados; intrépidos e diligentes, como eu dizia no citado texto. Gente expedita e decidida; gente capaz e séria e todos abrigados sob o teu manto protector. Mas com categoria! O João Oliveira, o meu amigo Jorge Machado (que mesmo nele não tendo desta vez votado, conseguiu eleger mais um deputado pelo Porto, deixando-me por isso mais aliviado), a Rita Rato, o Bruno Dias, o Manuel Tiago, a Paula Santos, o David Costa, o mais maduro António Filipe…um grupo que dá gosto ver, ouvir e admirar.

Tu conseguiste-o e consegues manter o Partido vivo, actuante e forte. Com gente ligada ao minado momento, quisemos o óptimo em troca do menos mau. É verdade Jerónimo. Eu, e muitos como eu, ainda nos lembramos do chumbo do PEC 4  e do que isso significou.

mundo corrente e às causas actuais, mas sempre actuando em nome de uma maior e melhor Justiça e na defesa inequívoca dos mais indefesos.

Mas hoje meu caro Jerónimo, no tempo corrente, é tempo de se corrigir os desmandos verificados nestes últimos anos, repondo às pessoas tudo aquilo que lhes foi indevidamente retirado. É tempo de manter firmeza, mas não te desvies do essencial. O resto virá no seu tempo certo. Não te arrependas nem cedas a provocações baratas pois nós compreendemos bem o que é essencial. Mas também aprendemos com a Grécia, Jerónimo. Quem tudo quer muitas vezes tudo perde. Nós sabemos Jerónimo. Nós nunca, depois destes quatro anos, soubemos tanto o que é o retrocesso porque, em deter

Haverá muitas coisas que este governo fará e decidirá e que não serão do meu agrado, nem do teu. Isso vai suceder com certeza. Manteres-te no objectivo principal que é o de salvaguardar os rendimentos dos mais pobres, os direitos dos mais isolados e fazer valer a importância do factor trabalho já são tarefas mais que importantes. No restante eu sei que Costa será hábil e saberá eleger o essencial em troca do acessório.

O eleitorado saberá reconhecer o teu contributo, Jerónimo! O Povo não é estúpido e sabe que, nas circunstâncias actuais, esse talvez pouco será muito. Será o retorno da dignidade e do deixar para trás o fatalismo e o não há alternativo ao empobrecimento.

Não tenhas medo Jerónimo e dou-te, se me permites, um conselho: Trata de ti, Homem! Emagreceste e pareces entristecido. Eu sei que trabalhaste muito, que deves ter suado para convencer alguns aí dentro, que te assaltam medos e receios, que estás compenetrado no risco que assumiste e tudo isso…mas calma, Jerónimo, calma Homem! O teu Povo conhece-te, todo o Portugal te conhece e te respeita e isto, o que tu fizeste, só te valoriza. A ti e ao Partido: E sabes porquê? Porque era precisamente o que ansiávamos e a razão por que eu, e muitos como eu, até não votamos no Partido, desta vez!

Um bem haja, Jerónimo!

Isto descrevi eu há um ano e o tempo deu-me razão!

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