MARCELO, UM PUSILÂNIME?

Poderão dizer-me: mas Marcelo é o nosso Presidente da República e, como tal, o supremo Chefe da Nação e o Comandante-em-Chefe de todas as Forças Armadas. Pois, mas Cavaco também o foi, era apenas o que me apeteceria dizer.

Mas tenho que dizer algo mais e, quanto ao título, ele é uma interrogação e não uma afirmação pois que, perante o que a seguir explanarei, a pergunta surge-me com naturalidade.

É que o que na verdade se verifica é que quando a agenda de qualquer um deles, que deveria ser normal, linear, transversal e patriótica, se torna em pessoal, nós tendemos a fazer perguntas destas, perguntas essas que põem em causa o nosso respeito pessoal  e tendemos a ficarmo-nos apenas pelo respeito institucional.

E daí a pusilanimidade! Mas o que é, no fundo, um pusilânime? É todo aquele que, mesmo pretendendo demonstrar o contrário, tem fraquezas de ânimo e mesmo alguma cobardia em enfrentar grandes desafios, desafios tidos como tabus. E também se poderá acrescentar que em relação a factos preponderantes que são da sua jurisdição eles se alheiam, virando a sua atenção para os que o não são ou apenas o são indirectamente.

Tudo isto vem a propósito das nossas Forças Armadas que, segundo o Correio da Manhã e o Expresso, cada vez mais parecidos um com o outro deva-se dizer, estarão em fase de pré levantamento! Porquê? Não sei, de facto não sei e nem sequer suspeito. Mas o Expresso deste fim de semana, do qual só li a primeira página, afirma em parangonas que “CHEFES DE ESTADO MAIOR UNEM-SE CONTRA O GOVERNO”! Acrescentando, em subtítulo, que acusam o Governo de tratar as Forças Armadas com “iniquidade” e de por em causa a “segurança colectiva”! Eu achei isto da ordem do fantástico! E vocês, não?

Mas, para ajudar, o nosso queridíssimo General Ramalho Eanes, também na mesma capa, e isto só pode ter sido obra do acaso, afirma que “Pusemos as nossas Forças Armadas num Gueto”. E mais não li!

Pusemos, Sr. General? Quem, eu? Este Governo? Eu não sei se esclareceu porque mais não li, mas suspeito que tal não tenha explicado. Mas posso tentar interpretar, mas à minha maneira, claro está.

Não vou aqui elucubrar sobre as Forças Armadas porque desse tema nada conheço, não andei na tropa, não fui à guerra, nunca peguei numa “canhota”, nem tão pouco saberei correctamente dizer todos os cargos da sua hierarquia. Apenas sei que no Exército começa em Soldado Raso e acaba em Marechal! Mas há coisas acerca delas que eu sei e que todos nós sabemos!

Sabemos, por exemplo, que é um Órgão de Soberania, que tem um específico poder, um poder que lhe advém das armas e outros apetrechos de guerra que só elas podem possuir e manobrar, mas a quem cabe o dever patriótico, especificado e aceite, de defender o nosso território de qualquer ameaça externa, de proteger as nossas fronteiras e de defender a nossa soberania, em suma. É o que lhes cabe!

Também sabemos que o Presidente da República em exercício é o seu Comandante Supremo e, portanto, o seu mais alto responsável e dignitário. Ninguém é nomeado sem a sua concordância e aval e a ele cabe, que não ao Ministro, que apenas administra as dotações orçamentais e formaliza nomeações, tratar da sua estabilidade organizacional e objectiva.

Mas observando o quão célere é este nosso Presidente a comentar tudo e todos, a dar palpites sobre as acções do Governo, sobre as suas medidas e sobre tudo aquilo a que a ele directamente não diz respeito, ficamos, pelo menos eu fico, espantados por, naquilo que directamente lhe diz respeito, ficar mudo e quedo, retraído e ausente. Mas porquê? Não será isto uma definição para “Pusilanimidade”?

Tudo isto e todas estas afirmações, afirmações que a serem verdadeiras colocam em causa a saudável convivência institucional, não lhe merecem qualquer comentário? A ele, ainda por o comentador mor do reino? Estranho, não acham?

Adjectivo esse que lhe pode igualmente ser aplicado em outros contextos como, por exemplo, no da Justiça! Porque é que ele que tanto intervém em tudo o que se trate de Administração Interna e não o faz quanto à Justiça? Será que ele, tal como eu, também não se quer meter com o Correio da Manhã, o muito preclarado verdadeiro órgão de informação do Ministério Público?

Mas eu até condescendo que em relação à Justiça ele não se pronuncie, pois o que vemos é que quanto a ela ninguém se pronuncia, muito embora se façam acerca dela programas sem fim, enfim, mas em relação às Forças Armadas Sr. Comandante-em-Chefe, nada? Mesmo quando um jornal como o Expresso, onde V. Exª foi preponderante, publica o que publica, quando um General como Ramalho Eanes diz o que diz, e já nem falo do tal CM, V.Exª nada tem a dizer? Nem se pergunta: o que se passa? Será que querem mais dinheiro? Só poderá ser e V.Exª disso terá que saber. E, não falando, aperta o nó ao cerco, não será Sr. Comandante? Quando pode lá vai ajudando, não é Sr. Presidente?

Devem queixar-se de “falta de meios”, não será? Todos dizem o mesmo, sempre dizem, os da Justiça também quando ela não funciona, não é? Os das fronteiras idem. Os da Judiciária, idem aspas e Etc.

Mas as Forças Armadas terão a tal “falta de meios” para quê? Há alguma guerra contra nós no horizonte? Algo que não saibamos? Temos mais Generais que qualquer país da Europa. Não chegam? Temos dois submarinos que não funcionam. Querem mais dois que funcionem, é? Os Pandurs são novos e estão enferrujados. Querem outros? Ou sentem-se num gueto porque, não havendo uma guerrinha que seja, se estão a sentir inúteis na sua enorme utilidade? Ou será porque, não havendo essa tal guerrinha que seja, se dão consciência da enormidade de Generais que têm para tão poucos Soldados?

É que deve ser mesmo muito chato, muito aborrecido e mesmo muito deprimente, passar horas, dias e mesmo anos esperando a dourada reforma, sitiados nos seus gabinetes jogando joguinhos de guerra virtual e à batalha naval! E aí eu até que acho compreensível o tal de “gueto” e a inevitável irritação.

Como não ter como poderem demonstrar a sua sabedoria de guerra, os seus conhecimentos geoestratégicos e coisas assim, assim num campo real e não apenas naqueles exercícios a fazer de conta.

As messes já são uma grande chatice e Jogar às Sueca (coisa para menores e não graduados), à Canastra, ao King, ao Bridge e mesmo ao Pocker é também já uma rotina medonha e perigosa para a saúde pois é sempre acompanhada daqueles Whiskies, a cujo preço só eles têm direito, que vão suavemente destilando…Eles até que têm razão: isso não é vida!

E aí, enfim, muito me admira a falta de sensibilidade do seu Comandante-em-Chefe, alheio que demonstra estar a estes pungentes problemas. Problemas que os fazem sentir-se num “gueto” e a acharem tudo isso uma “iniquidade” que, pondo os seus cérebros num fastidioso “stress”, colocam em perigo a “segurança colectiva”!

Que afrontem o Governo eu até acho normal. Quem não o afronta por falta de meios, por falta de progressões nas carreiras e falta de condições de trabalho…Quem?

E digo mais: com todo o acervo de compaixão que o meu coração encerra, da Tropa eu tenho pena, tão abandonada mostra estar! E tenho pena porque, pretendendo sentir o que eles sentem, sem uma guerrinha que seja, para que serve ela?

E concluo: Poxa, com esta Tropa já nem é possível haver PAZ!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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