O MANIFESTO

Li o “Manifesto- Preparar a reestruturação da dívida para crescer mais sustentadamente” e concluí seu um documento que é um COMPROMISSO. Elaborado e subscrito por 70 pessoas dos mais diversos quadrantes políticos e ideológicos, com visões muitas vezes até antagonistas sobre muitas coisas, mas aqui coincidiram num único objectivo: Renegociar ou Reestruturar a dívida, de modo a que ela não se transforme num ” garrote” de onde, a não serem tomadas as medidas nele enunciadas, não sairemos.

É uma peça equilibrada, sensata e institucional. Nota-se que todos cederam um pouco para encontrar um denominador comum : salvar o  nosso futuro. Não apela à recusa do seu pagamento, nem ao seu perdão, mesmo que parcial e explica, isso sim, o que se deverá fazer para que ela possa ser paga, duma maneira estruturada e sem o recurso a mais empobrecimento. É, no fundo, um contributo para a normalidade.

Já várias vezes aqui aflorei o tema, em vários textos e, na verdade, os pontos continuam a ser os mesmos : A Dívida é sustentável? Não! E tem que ser reestruturada? Tem! O Peso dos Juros tem que ser diminuído? Tem! As maturidades alongadas? Claro! E como o conseguir? É isso mesmo que o Manifesto explica de maneira bem elucidativa. Basta ler!

Porque, como também já aqui antes escrevi : REESTRUTURAR É CRIAR CONDIÇÕES PARA PAGAR.

O Governo sempre tentou vender a ideia de que quem defendia a Reestruturação não queria pagar a dívida, mas o contrário é que é verdade : quem se recusa a reestruturar uma dívida que à luz de todos os indicadores é insustentável é porque só encontra uma maneira de a pagar: empobrecendo o Povo. Mas é contra isso que toda esta gente se manifesta e não se resigna.

Este documento, para lá do seu conteúdo técnico e programático, é também um importante contributo político e toda a celeuma e incomodo que tem causado nas hostes governamentais e  em personalidades que as apoiam, tem a ver com uma coisa simples : a desmitificação da dificuldade de obter consensos, pois como se vê o consenso é possível, quando em torno de uma questão concreta, clara e transversal.

Bagão Félix, um dos seus primeiros promotores, disse hoje na Antena 1 uma coisa evidente: O PSD e o PS, mais o PR, fazem de conta que procuram acordos, apelam a consensos, mas tudo fazem para que eles não se concretizem. E quando a sociedade civil, como neste caso, em torno de um importante tema consegue um consenso alargado, ” aqui del rei! que não é oportuno, que só vão acordar os mercados ( como se eles dormissem), que vão fazer soar as campainhas ( como se eles fossem surdos), que é irrealista, que a fazer-se deve ser feito às escuras, com sobriedade e no recato dos gabinetes, que os subscritores têm agenda própria…etc. etc.. E é engraçado como na crise de Julho último não pensaram nisso!…

Ora o que está em causa é precisamente isso : que nos ouçam, que saibam que estamos despertos e que, perante o que lhes é proposto concluam : ELES QUEREM REALMENTE PAGAR!

O PM sentenciou ontem sobre o que não tinha lido e hoje sobre o que não está escrito. Não leu, portanto, desvalorizou ou foi mal informado. Como todos aqueles que alvitraram e mostraram à saciedade o seu vazio e a sua pequenez, como aquele ” fedelho” de barba hoje na AR que disse: ” Ah! Mas entre esses subscritores há antigos ministros que nos conduziram a este estado”. Não percebe nada, não tem nada para dizer e como não tem nada para dizer tentam desviar as atenções. Por seu turno o PR que passa a vida a apelar a consensos e a cultivar a cultura dos compromissos, fecha-se em copas e exonera dois seus conselheiros que tiveram a ousadia de subscrever o Manifesto. Também não quer a reestruturação da dívida embora, nos seus últimos escritos, conclua que a mesma é insustentável.

Um problema desta gravidade não pode deixar de ser discutido, de ser publicamente discutido, só porque pode “molestar” os mercados. E como disse hoje à noite Bagão Félix na Sic Notícias : “Porque não se pode falar nisto? Há censura nos mercados?”

O PM diz : ” Reestruturar/ Renegociar a dívida? Nem pensar, está fora de questão”. Por seu turno a Ministra das Finanças afirma peremptoriamente: ” A dívida portuguesa é sustentável!”. E vem um tipo da CE e corrobora.

Mas nem o PM, nem a Ministra, nem o Catroga, esse grande patriota ( que vi na televisão fazer mais uma ” figurinha”,pondo-se em bicos de pés, a dizer em inglês ao tipo da Troika : Lembra-se, não fui eu que disse que era preciso lá colocar a necessidade de reformas estruturais?” – Não a dele, acrescento eu!) podem agir e falar como se não soubessem que, nas circunstâncias actuais e perante as ténues perspectivas de crescimento e obtenção de saldos primários relevantes, a dívida é insustentável e de impossível remissão. A não ser que…a não ser que as tais reformas estruturais sejam a continuação da política de empobrecimento acelerado até aqui seguida e o contínuo confisco dos rendimentos do trabalho para o efeito.

Será isto mesmo o que eles desejam? É que, para já, não têm dado mostras de coisa diferente.

É que, afirmando não querer reestruturar e ser sustentável a dívida, não conseguem explicar como e que razões para não o fazer.  Mas este Manifesto apresenta todas as razões objectivas para a necessidade de reestruturar a dívida! 

Será apenas ” auto de fé”? Um ” auto de fé” na tal doutrina da ” Destruição Construtiva“?

É por falta de argumentação e resposta às questões formuladas no Manifesto, e o ” agora estamos melhor” é obviamente contrariado por todos os indicadores, todos, que muitos começam a acreditar que esta gente está contratada e ao serviço desse ” Deus desconhecido” como lhe chamou Adriano Moreira ( a quem um outro ” fedelho” ousou querer ensinar a história da Alemanha), ou dos  novos ” Vampiros da modernidade” como apelidou Eduardo Lourenço, para  nos continuar a impôr a punição, o castigo por termos tentado viver melhor com o dinheiro que eles nos emprestaram, de lho devolvermos porque eles, coitados, perderam dinheiro na crise, com os esquemas de especulação e viram as suas ações baixar… e temos que lhes devolver, e com juros, a casa, o carro, os electrodomésticos….tudo! Até a nossa dignidade.

Eles estão onde estão a cumprir uma missão. Só pode ser… cumprindo ordens…eles e todos os outros, os que têm pavor ao tal Deus, a quem não podemos acordar para não provocar a sua ira…nem falar alto ou em público que ele pode ouvir… e depois castiga-os. Só pode…

E o Povo? O Povo, coitado, esse existe para os legitimar, neste arremedo de democracia em que tristemente vivemos…

PS: O ” pinguim estridente” também piou, mas o ” patinho seguríssimo” calou!

 

 

 

 

 

 

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