PAGADOR de PROMESSAS

Na peça escrita por Dias Gomes, levada ao cinema em 1962 por Anselmo Duarte, num premiadíssimo filme que tive oportunidade de ver e em diversas adaptações a seriados de TV, ZÉ do BURRO foi obrigado a carregar uma pesada cruz para cumprir uma promessa feita num “Terreiro de Candomblé” para que o seu Burro Nicolau melhorasse.

Mas, por tal promessa ter sido feita em território pagão, digamos assim, não lhe foi permitido, depois de ter carregado a cruz até à Igreja, cumprir na sua plenitude a mesma.

E porque o cumprimento de tal promessa pressupunha a divisão de metade das suas terras pelos pobres, logo todos tentaram aproveitar-se da inocência do ZÉ BURRO, chamando a si cada sector a sua luta e, no final, ZÉ BURRO é morto no meio da confusão gerada sem ter conseguido cumprir sua promessa.

Recorro esta célebre estória para, não aferindo pelo exemplo do ZÉ BURRO, constatar que as promessas são hoje o que são, como se usa dizer, valem o que valem, como à saciedade vemos e perderam aquela carga de obrigação vital que para gente como o ZÉ BURRO tinham. Uma promessa correspondia a um compromisso de palavra dada.

É ancestral a utilização da promessa para as pessoas pedirem socorro perante alguém em quem lhes ensinaram a acreditar, e em quem acreditavam poderes para tal, para resolver problemas que a sabedoria humana ainda tinha por inalcançável. Assim, lembro-me de quando era pequeno os nossos parentes nos “apegarem” a algum Santo, neste caso São Bento, para que desaparecessem os cravos que nos apareciam. Havia um Santo para qualquer coisa que a Natureza e o conhecimento empírico dela advindo não sabia explicar. E juntando a essa ausência de conhecimento uma Fé em algo ou alguém superior preparado para com a sua complacência lhes resolver todos os males, a tudo se recorria. A cada santo a sua especialidade e a cada um a sua modalidade.

Estamos fartos de saber, e saber mesmo de experiência feita, que assim era e que em muitas circunstâncias assim continua a ser e daí que essa velha tradição se venha mantendo e tivesse derivado para outros campos e se tenha tornado numa poderosa arma de profusa utilização para quem promete receber da outra parte a dúvida da confiança e do pode ser que sim.

Mas há as promessas de antes e as de depois. Às promessas do antes é exigido o antecipado sacrifício, seja qual for o retorno para a graça pretendida. Na do depois só após o retorno e se bem-sucedido. E, se não foi, terá sido porque o Santo assim decidiu, Deus não quis ou quem prometeu não conseguiu cumprir. Nos Santos porque há uma carga Divina e insondáveis razões e nos humanos porque a ancestral complacência das gentes se impõe.

E chegamos a um eu prometo e vou fazer de duvidosa aceitabilidade pela experiência adquirida ao eu prometo simplesmente que, na actualidade e ao que à política por exemplo diz respeito, vale quase o mesmo. É ao que chegou o conceito terreno das promessas, daquelas que não têm a carga simbólica da obtenção do impossível, como as derivadas da Fé e da religião, e onde já tudo se resume ao cumprimento ou não da palavra dada e assumida na promessa. Se votarem em mim eu prometo que faço… O “se” torna-se no “deus” insondável em quem se acredita ou não. Mas sendo um “se” tende-se a acreditar e a promessa virou demagogia.

É esta a dicotomia que chegamos e, por isso, o exemplo do ZÉ do BURRO é relevante: a sua promessa não foi egoísta, não foi para si, pressupunha até a divisão dos seus bens, foi para o seu Burro e a tudo se sujeitou pelo seu Burro e pela inerente palavra dada. Até à morte!

Mas eu utilizo a metáfora da história do Zé Burro para, seguindo o seu exemplo, sinalizar que, no entanto, ainda há quem seja coerente e tudo faça para cumprir as suas promessas e a palavra dada. E fá-lo sendo transparente e explicando as razões pelas quais as consegue cumprir ou não na sua plenitude. Honrando a palavra dada, em suma.

É que, ao arrepio do exemplo do anterior Primeiro Ministro que tudo prometeu sabendo que jamais cumpriria o prometido, o actual Primeiro Ministro (António Costa) prometeu o que prometeu porque sabia que tinha que cumprir. E este cumprir sofrendo, tal como o Zé do Burro, toda a utilização perversa, todo o despudor, toda a arrogância feita de esquecimento de quem promessas nunca cumpriu.

Um PAGADOR DE PROMESSAS é isso mesmo, é tudo fazer para honrar a palavra dada, como fez o Zé do Burro que, em nome dela até pereceu. Por ser um PAGADOR DE PROMESSAS.

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